—Cedam que já não são novas? Um rugido bêbado cortou o silêncio do vagão da linha Yamanote, em Tóquio, naquela noite. O homem que gritara tinha os olhos injetados, o hálito pesado de álcool e uma tatuagem de serpente a enrolar-se pelo braço. Estava diante do assento preferencial onde se sentava Yoshie Saitou, setenta e poucos anos, uma senhora pequena, de cabelos brancos e mãos cansadas.

Ela encolheu-se instintivamente. Aquele horário e aquele comboio eram-lhe familiares há anos, mas aquela ameaça não o era. — Estou sentada no lugar preferencial — respondeu, com a voz a tremer, mas com uma pequena coragem que não a deixava ceder. — Pela minha idade e pelo peso da minha bagagem.
Nas mãos segurava um grande recipiente com conservas caseiras. Levantava-se cedo, todos os domingos, para levar aqueles frascos à casa da filha e à neta que tanto amava. Aquela viagem matinal era o seu ritual de afeto. — Uma velha como tu devia saber ler o ambiente — gracejou o homem, com um sorriso de escárnio.
Depois, sem aviso, um estalo seco. A palma da mão dele atingiu o rosto de Yoshie com violência. O som ecoou no vagão. O recipiente caiu no chão com um baque surdo, a tampa saltou, e o molho avermelhado das conservas espalhou-se pelo chão, misturando-se com pedaços de vegetais.
O cheiro salgado invadiu o ar, confundindo-se com o álcool. Yoshie nunca tinha sido agredida na vida. Nem pelo marido, nem pelos filhos. E agora, diante de desconhecidos, sob o olhar de dezenas de pessoas, fora atingida.
A face ardia, um zumbido enchia-lhe os ouvidos, e a consciência parecia afastar-se. Instintivamente, ajoelhou-se e começou a apanhar os pedaços espalhados com as mãos trémulas. Lágrimas caíam-lhe silenciosamente pelas faces. Ninguém no vagão se mexeu.
Ninguém interveio. Olhares desviados, rostos voltados para o telemóvel, para a janela. Não havia ali compaixão nem coragem — apenas indiferença e medo. E essa ferida, a da frieza humana, doía mais do que a bofetada.
Quando o comboio chegou ao destino, Yoshie desceu cambaleando. A mão tremia, a face inchada marcada pela mão do agressor. Pela fresta da tampa partida, o molho escorria, mas ela já não se importava. A dor interior era maior.
Naquela noite, na casa da filha Misaki, Yoshie preparou o jantar como se nada tivesse acontecido. Mas o inchaço não baixava, e a mão tremia de vez em quando. Sempre que passava por um espelho, via a marca violácea. Fazia um esforço enorme para ignorar.
Não queria preocupar a filha, nem a neta. Queria esconder aquela lembrança humilhante. — Mãe, o que aconteceu ao seu rosto? — Misaki perguntou assim que entrou pela porta, alarmada.
— Bateu em algum lado? — Não foi nada — disse Yoshie, acenando com a mão. — Esbarrei no canto da porta. A idade não perdoa.
Forçou um sorriso frágil, prestes a desmoronar-se. Misaki olhou-a com desconfiança, mas não insistiu. Sabia que a mãe nunca queria dar preocupações. De repente, a porta abriu-se novamente.
— Avó! Já cheguei! Uma voz forte e familiar. Yoshie sobressaltou-se.
Não esperava aquela visita. No átrio, vestindo o uniforme impecável das Forças de Autodefesa do Japão, estava a neta mais velha: Ami Saitou, sargento de primeira classe, membro da Força de Operações Especiais, a elite do Exército. Tinha tirado uma licença repentina e decidira passar pela casa da família. — Mãe, avó, sou eu, a Ami.
Consegui uma folga inesperada. Só posso ficar até amanhã. Sorria com afeto, mas o seu olhar fixou-se de imediato no rosto da avó. Treinada para ver o que os outros não veem, Ami reparou no inchaço, na marca de uma mão na face, no porte encolhido e na tristeza abafada no olhar.
Aquele não era um ferimento de porta. — Avó, o que aconteceu à sua cara? — A voz de Ami endureceu, com uma precisão fria que misturava a calma de uma comandante com a preocupação por quem amava. — Quem lhe fez isso?
Yoshie hesitou. O olhar da neta era afiado demais. Mentir seria inútil. — Não foi nada… apenas um descuido…
— Avó, não me minta.
Ami aproximou-se e examinou o rosto da avó com atenção. Os olhos treinados identificaram o formato e a dimensão da marca. — Isto é a marca de uma mão adulta. Forte.
Com considerável força. Yoshie não teve alternativa senão contar tudo. Falou do comboio, do homem bêbado que exigira o assento, da recusa, da bofetada. Enquanto ouvia, a expressão de Ami foi-se tornando pedra.
Os punhos fechados, os nós dos dedos brancos. — Quem é esse homem? Como é que ele era? A voz de Ami era gelo.
Nada da neta gentil e doce que Yoshie conhecia. Os olhos brilhavam como os de uma fera a mirar a presa. — Chega, Ami. Já passou.
Não vale a pena. Se te envolveres, podes meter-te em problemas. Não podes arranjar problemas sendo militar — disse Yoshie, agarrando a mão da neta com as mãos trémulas. Mas dentro de Ami, a raiva já ardia sem controlo.
Como oficial das Operações Especiais, jurara proteger o país e o seu povo. Isso incluía os fracos e a justiça. A avó, indefesa, fora agredida sem que ninguém interviesse. Aquilo feria a sua alma de militar.
Aquela noite, Ami não conseguiu dormir. O sofrimento da avó não lhe saía da cabeça. Bater numa mulher de mais de setenta anos. Bater numa avó que estava sentada no lugar preferencial.
Um ato imperdoável. Nas Operações Especiais, aprendera que a força servia para proteger os fracos e fazer justiça. E agora, a sua própria família fora vítima dessa injustiça. Não havia motivo para hesitar.
Na manhã seguinte, Ami levantou-se cedo. A avó preparava-se, como sempre, para voltar a apanhar o primeiro comboio para casa da filha. Misaki tentara convencê-la a não ir, mas a teimosia de Yoshie era inabalável. — Avó, hoje eu vou consigo.
— Porquê? Estás de férias, deves estar cansada…
— Preocupo-me quando a avó sai sozinha. Vamos juntas. Havia doçura nas palavras, mas também determinação.
Yoshie acabou por ceder. Entraram no mesmo comboio, à mesma hora, no mesmo vagão. Ami vestia roupa civil, mas o corpo treinado e o olhar atento denunciavam a sua origem. Examinava tudo à sua volta, ao mesmo tempo que começava a recolher informação.
— Com licença — dirigiu-se a uma mulher de meia-idade sentada ao lado. — Ontem, a esta hora, neste vagão, viu uma senhora idosa ser agredida? A mulher estremeceu, com uma expressão de culpa e medo. — Ah, aquilo… Sim.
Coitada. Mas ninguém fez nada. Tínhamos demasiado medo. — Lembra-se de como eram os homens?
— Eram quatro. Todos com tatuagens, um ar ameaçador. O que bateu na senhora tinha uma grande tatuagem de serpente no pescoço. Falavam de algo chamado… Oroka-kai.
Ami gravou aquele nome na memória. Ouvira falar dele durante o treino de recolha de informações. Um grupo de crime organizado de média dimensão, com base em Shinjuku. Quando o comboio chegou ao destino e deixou a avó em casa da filha, Ami pegou no telemóvel.
Ligou a um antigo superior, o sargento Kimura, com quem servira em missões especiais. Kimura agora trabalhava numa empresa de segurança privada, mas mantinha uma vasta rede de contactos. — Sargento Kimura, é a Ami. A minha avó foi agredida por membros do Oroka-kai.
Preciso que investigue essa organização. Kimura ficou em silêncio por um momento. — O Oroka-kai. Ouvi dizer que andam a extorquir pessoas nos comboios.
Vou ver o que consigo. Mas, Ami, não faças nada por conta própria. Isso não é trabalho nosso. — Entendido, sargento.
Mas a mente de Ami já estava decidida. Não podia deixar aqueles homens impunes. No regresso à base, no shinkansen, começou a traçar um plano. Recolher informações, identificar o agressor, e aplicar uma punição dentro da lei — de uma forma que ninguém pudesse prever.
Na base, Ami esteve mais silenciosa do que o habitual. Os colegas notavam a distância, a concentração excessiva. Durante as pausas, afastava-se para consultar o telemóvel. Finalmente, chegou a mensagem de Kimura:
“Ami, confirmei as informações sobre o Oroka-kai.
Organização pequena, opera a partir de clubes em Shinjuku. O braço direito do chefe, um homem chamado Kenji Tatsuzaki, é quem lidera os golpes nos comboios e as fraudes contra idosos. Vou enviar-te uma foto. ”
Ami olhou para o ecrã.
O punho fechou-se com força. Era ele. O homem da tatuagem de serpente. O homem que batera na sua avó.
Kenji Tatsuzaki, 57 anos. Várias condenações por extorsão, violência, fraude. Mas sempre escapava com penas suspensas ou curtos períodos de prisão. Quanto mais lia, mais a raiva crescia.
Mas a razão fria também funcionava. Ami aprofundou a investigação, usando os contactos dentro das Forças de Defesa. Acedeu a bases de dados policiais através de um antigo colega nos serviços de informação, e recolheu dados em tempo real através de antigos colegas no setor privado. O que descobriu foi chocante.
Tatsuzaki não era um simples criminoso de rua. Nos últimos anos, estivera envolvido em mais de vinte casos de extorsão e violência contra idosos nos comboios de Tóquio. Mas a maioria das vítimas, idosas e amedrontadas, nunca apresentava queixa, ou os casos eram arquivados por falta de provas. Ami também mapeou os hábitos de Tatsuzaki: clubes em Shinjuku, regresso a casa de comboio de madrugada, uso frequente dos lugares preferenciais da linha Yamanote.
Certo dia, durante a pesquisa, Ami fez uma descoberta que a deixou paralisada. Os registos de nascimento de Tatsuzaki e o local de residência anterior da avó coincidiam. No mesmo período. Como se um fio fino do destino os tivesse cruzado.
O coração disparou. Uma suspeita terrível atravessou-lhe a mente. Ligou para a avó, com os dedos a tremer. — Avó, preciso de lhe perguntar uma coisa.
Além da minha mãe, a senhora teve outro filho? Um silêncio longo, sufocante. Ami conseguia ouvir a respiração trémula da avó. — Porque perguntas isso?
— A voz de Yoshie tremia, com ansiedade e tristeza. — Avó, por favor, seja honesta comigo. Não precisa de se esconder de mim. Após um longo suspiro, Yoshie rendeu-se.
— Tive. Um menino nascido cinco anos antes da tua mãe. A voz foi-se tornando mais baixa, como se percorresse uma memória dolorosa. — Naquela altura… não tinha como cuidar dele.
Tinha vinte anos, não era casada. Levei-o para uma instituição. Não consegui criá-lo. O coração de Ami batia tão forte que doía.
— Qual era o nome dele? — Kenji. Kenji Tatsuzaki. Ami sentiu arrepios por todo o corpo.
O homem que batera na sua avó era o filho que ela fora forçada a abandonar. O seu próprio tio. — Avó… aquele homem, aquele que a agrediu no comboio…
— Sim. Era ele.
O filho que abandonei. A voz de Yoshie estava carregada de culpa e dor. — Já sabia há alguns anos. Cruzámo-nos por acaso na rua.
Reconheci-o pelo rosto, igual ao de pequeno. Mas nunca tive coragem de lhe falar. Que direito tinha eu? A mente de Ami girava.
O inimigo que planeava derrotar era o próprio tio. Não era simplesmente um crime — era um destino distorcido e trágico. Mas isso tornava a raiva ainda maior. Bater na própria mãe, mesmo tendo sido abandonado, era algo que nenhuma dor passada podia justificar.
— Por isso é que não denunciou à polícia? — perguntou Ami, com a voz a tremer de indignação. — Como podia denunciar o meu próprio filho? Se eu o tivesse criado bem, ele não teria tornado assim.
A culpa é minha. — Avó, não diga isso — cortou Ami, firme. — Qualquer que seja a razão pela qual o entregou, isso nunca justifica bater numa pessoa. Muito menos na própria mãe.
Nenhuma razão justifica a violência. Yoshie soltou um suspiro profundo. — Coitado dele também. Cresceu numa instituição, sozinho.
Deve ter sofrido tanto. Talvez, se eu o tivesse criado com amor, ele não tivesse seguido esse caminho. De certa forma, Ami compreendia a dor do tio. Mas compreender não era perdoar.
Aquilo não era uma questão de sentimentos pessoais, mas de justiça e ética. Como oficial das Forças Especiais, não podia ignorar o assunto. Depois de desligar, a determinação de Ami ficou ainda mais forte. Tatsuzaki fosse ou não parente, o crime contra uma idosa era imperdoável.
E bater na própria mãe era algo que não podia ficar impune. Naquela noite, ligou novamente aos antigos superiores. — Senhores, preciso do vosso apoio. Chegou a hora de fazer justiça.
A rede informal de veteranos das Forças de Operações Especiais começou a mover-se em silêncio. Dois dias depois, Ami pediu uma licença especial por motivos familiares. Não era mentira — o assunto era, de facto, familiar. Apenas não era o tipo de assunto que os superiores imaginavam.
Quando a licença foi aprovada, apanhou o shinkansen para Tóquio. Durante a viagem, recebeu outra mensagem de Kimura, com a estrutura completa do Oroka-kai:
“Chefe: Kenji Tatsuzaki. Três subordinados diretos: Takeshi Owada, Minoru Kawakami e Junya Miura. Todos envolvidos nos golpes nos comboios.
Investiguei os pontos fracos de cada um. Usa isso no teu plano. ”
Ami estudou os documentos com atenção. Conhecer o inimigo era metade da batalha.
Ao chegar a Tóquio, foi diretamente a casa da avó. Yoshie estranhou a nova licença. — Não vais ter problemas no trabalho por tirares tantas folgas? — Não se preocupe, avó.
Eu trato disso. Mas Yoshie percebeu algo diferente no olhar da neta. Um brilho frio, afiado, de quem se prepara para agir. — Ami, não vais fazer nada em relação ao Kenji, pois não?
— Não se preocupe. Vou agir apenas dentro da lei. E ele vai assumir a responsabilidade pelo que fez. Naquela noite, às onze, Ami encontrou Kimura num café em Shinjuku.
Com ele estava Takashi Takahashi, outro veterano das Operações Especiais, dono de uma empresa de segurança privada, com uma vasta rede de contactos. — Ami, há quanto tempo — disse Takahashi, com uma expressão preocupada. — Mas este assunto pode ser perigoso. Tem a certeza?
Não podemos envolver-nos diretamente. — Eles bateram na minha avó. Não posso ignorar isso. E não usaremos violência — garantiu Ami, com os olhos firmes.
— Vamos fazê-los ruir por meios legais. Takahashi colocou um tablet na mesa, com a estrutura do Oroka-kai. — O chefe é Tatsuzaki. Os três subordinados diretos são Owada, Kawakami e Miura.
As fontes de renda são clubes, extorsão nos comboios e fraudes contra idosos. Gente desprezível. — Como conseguiu esta informação? — perguntou Ami.
— A minha empresa faz a segurança de um dos clubes deles. A informação chega naturalmente. E é legal, não te preocupes. — Ami, tens mesmo a certeza de que Tatsuzaki é filho da tua avó?
— perguntou Kimura. — Sim. A minha avó confirmou, e os registos coincidem. — Isso torna tudo mais complicado.
É família. — É por ser família que não posso perdoar — respondeu Ami, com uma dureza de aço. — Quem é que bate na própria mãe? Uma mulher de mais de setenta anos?
A família é exatamente quem se devia proteger. Kimura e Takahashi concordaram. O laço de sangue não atenuava o crime — antes o agravava. — Então vamos fazer um plano — disse Takahashi.
— No entanto, atacar o chefe diretamente é arriscado. — Não. Vamos começar pelos subordinados. Tatsuzaki fica para o fim.
Os que estavam com ele quando bateu na minha avó também vão assumir as responsabilidades. Ami explicou o seu plano minucioso. O primeiro alvo seria Takeshi Owada, o braço direito. Se fosse neutralizado, a organização enfraqueceria.
— E como vais aplicar a punição? — perguntou Takahashi. — Não podemos simplesmente bater neles. Ami esboçou um sorriso frio.
— Esqueceram-se do que aprendemos nas Operações Especiais? A violência física não é a única forma de punição. — Owada é suspeito de fraude imobiliária, mas nunca foi acusado por falta de provas. Se surgirem provas decisivas…
— Nós fornecemos essas provas, anonimamente, à polícia — completou Kimura, com um brilho nos olhos.
— Kawakami faz tráfico de droga no clube. Uma denúncia resolve. — E o Miura? — perguntou Takahashi, consultando o perfil.
— Ele tem o hábito de se gabar dos crimes nas redes sociais. Vou recolher tudo, entregar à polícia e deixar vazar para a imprensa. O objetivo é o aniquilamento social. — Bom plano.
E o Tatsuzaki? Os olhos de Ami ficaram frios como gelo. — Para ele tenho algo mais especial. Vou fazer com que perceba o que fez — e depois, receberá a punição mais severa que a lei permitir.
Os três veteranos passaram a noite a aperfeiçoar o plano: papéis de cada um, métodos de recolha de provas, cronograma. — Ami, tens a certeza? — perguntou Takahashi, com preocupação. — Isto pode afetar a tua carreira militar.
Nós somos veteranos, mas tu ainda estás na ativa. — O que aprendemos nas Operações Especiais? Fazer justiça e proteger os fracos. Agora é o momento de praticar.
A minha honra como militar e o meu papel como neta ordenam-me que aja. No dia seguinte, a operação começou. Ami vigiou Owada num restaurante em Shinjuku, onde ele se reunia semanalmente com corretores imobiliários para esquemas de fraude. Usando equipamento de escuta de última geração, captou todas as conversas.
Ao mesmo tempo, a equipa de Takahashi fotografava documentos secretos através de um buraco na parede. — O caso do prédio em Suginami, como está? — perguntou Owada ao corretor. — Está a correr bem.
Os documentos estão perfeitos, e o velho dono não desconfia de nada. Em breve ficaremos com o imóvel por um valor irrisório. — Excelente. Este negócio vale pelo menos trinta milhões.
Tudo foi gravado, documentado. Depois, Miura. O seu perfil nas redes sociais era um verdadeiro museu do crime: fotos de extorsões, dinheiro roubado, vítimas humilhadas. E entre as publicações, Ami encontrou uma que a gelou:
“Hoje dei uma lição a uma velha no comboio.
Não queria ceder o lugar. Há gente que só aprende à bruta. ”
A data era exatamente a da agressão à avó. Ami sentiu o sangue a ferver, mas manteve-se fria e metódica, recolhendo tudo.
Uma semana depois, o escritório de Owada foi invadido pela polícia, com base em provas anónimas. Documentos falsificados, telefones em nome de terceiros, listas de vítimas. Owada foi preso em flagrante. Tatsuzaki ficou furioso e paranoico.
Primeiro o braço direito. Depois, Kawakami, apanhado numa operação de tráfico de droga com dois quilos de estimulantes, graças a um vídeo captado pela equipa de Takahashi no clube. Por fim, o caso de Miura explodiu nos media. As suas publicações humilhantes contra idosos foram expostas em todos os canais de televisão.
O SNS encheu-se de fúria pública. Ele foi alvo de linchamento social e desapareceu do mapa. Tatsuzaki ficou sozinho, num império em ruínas. Fechado no apartamento, a beber, a tremer a cada sombra.
Quem estava a fazer aquilo? Quem o estava a caçar? Ami observava tudo de longe, com precisão cirúrgica. — A primeira fase está concluída.
Resta apenas o Tatsuzaki. — Para ele, não basta a punição legal — disse Takahashi. — Ele precisa de entender o que fez. Ami concordou.
A isca final foi preparada. Takahashi, usando uma voz alterada e um telemóvel descartável, ligou a Tatsuzaki, fazendo-se passar por um antigo contacto de Owada. — Sr. Tatsuzaki?
Eu trabalhava com o Owada. Ele escondeu dinheiro e registos secretos antes de ser preso. Se a polícia os encontrar, o senhor também está perdido. Mas esse dinheiro pode comprar a sua fuga para o estrangeiro.
Tatsuzaki hesitou. A ganância e o desespero lutaram contra o medo. — O que é que quer de mim? — O material está num cacifo da estação de Yoyogi.
A chave está escondida debaixo do assento preferencial do quarto vagão do comboio das 22h40, linha Yamanote, sentido externo. Yoyogi. A estação onde a avó apanhava o comboio todas as semanas. O assento preferencial.
A mesma linha. Todos aqueles detalhes penetravam como agulhas. Tatsuzaki engoliu em seco. Finalmente, a ganância venceu o medo.
Pegou numa pistola e saiu. Ami esperava-o na estação de Yoyogi, quase vazia àquela hora. Quando o comboio chegou, Tatsuzaki entrou no quarto vagão, dirigiu-se ao assento preferencial e encontrou a chave. Suspirou aliviado.
Foi então que uma mulher entrou pelo vão da porta a fechar. Vestia um casaco preto simples, mas o andar e a postura denunciavam algo de anormal. Aproximou-se lentamente, sem hesitar. — Quem é você?
O que quer? — Tatsuzaki recuou, com o instinto em alerta. — O meu nome é Ami Saitou — respondeu a mulher, com uma voz quieta, mas com a força de aço. — Sou neta de Yoshie Saitou.
A face de Tatsuzaki empalideceu. A imagem da velha a quem batera naquele mesmo lugar dias antes voltou-lhe à memória. E de repente, todas as peças do puzzle se encaixaram. — Foste tu!
Foste tu que destruíste a minha organização! A sua voz tremia de raiva e medo. — Bateu numa mulher de mais de setenta anos por causa de um assento. Essa mulher é a minha avó.
E depois, um passo em frente. — E há mais uma coisa que deve saber, Sr. Tatsuzaki. Ou talvez deva chamar-lhe tio.
— Tio? Enlouqueceu? — Yoshie Saitou, a mulher a quem chamou velha e bateu — ela deu à luz o senhor. Foi forçada a entregá-lo a uma instituição.
Ela é a sua mãe biológica. O impacto foi como um raio. O mundo de Tatsuzaki desabou. As imagens daquele dia regressaram com uma nitidez cruel: o medo nos olhos da velha, o som da bofetada, as conservas espalhadas, as mãos trémulas a apanhá-las.
A mãe que ele odiara durante toda a vida, a quem culpava por o ter abandonado, era a mesma mulher que ele tinha agredido. Um gemido sem sentido escapou-lhe da boca. A pistola caiu-lhe das mãos. Ele desmoronou-se no chão, sem qualquer resistência física.
A verdade, sozinha, destruíra-o por completo. Quando o comboio chegou à estação seguinte, a polícia esperava na plataforma. Tatsuzaki foi preso sem resistir, como uma marioneta sem cordas. No interrogatório, confessou tudo, incluindo crimes por que a polícia nunca tivera provas.
Mas a mente estava noutro lugar. A frase de Ami ecoava-lhe na cabeça: “Ela é a sua mãe. ”
Ami voltou a casa da avó, que a esperara até tarde. — Avó, ele foi preso.
Yoshie apertou a mão da neta, com lágrimas nos olhos, repetindo apenas: “Ainda bem. ” Ami não contou, naquele momento, que o homem era seu filho. A notícia seria demasiado pesada. Mas dias depois, quando a notícia da prisão de Tatsuzaki e os seus crimes vieram para o ecrã da televisão, Yoshie reconheceu o rosto do filho.
As mãos tremiam. — Ami… não é o Kenji? Ami percebeu que não podia mais esconder. Sentou-se ao lado da avó, segurou-lhe a mão e contou tudo: os acontecimentos daquela noite no comboio, a relação de Tatsuzaki, e o facto de ele agora saber a verdade.
A reação de Yoshie não foi de raiva nem de surpresa. Foi uma onda de tristeza dilacerante e de culpa infinita. — O meu filho… o meu filho bateu na própria mãe. Sem saber… Tudo culpa minha.
Se eu não o tivesse abandonado, nada disto teria acontecido. Chorou como uma criança pequena, com soluços secos, carregando décadas de culpa e dor. Durante dias, Yoshie ficou acamada. Depois, insistiu que tinha de ver o filho.
Ami tratou da visita especial na prisão. Na sala de visitas, separados por um vidro grosso, mãe e filho sentaram-se frente a frente pela primeira vez em mais de cinquenta anos. Durante muito tempo, não disseram nada. Apenas se olharam, com lágrimas a correrem-lhes pelas faces.
Foi Tatsuzaki quem falou primeiro. — Peço desculpa. A voz estava rouca, sufocada. Yoshie respondeu com as mãos trémulas.
— Não. A culpa é minha. Eu é que peço desculpa, Kenji. Desculpa.
Mãe e filho apertaram as mãos através do vidro e continuaram a chorar. Aquele era o reencontro mais triste do mundo. No dia do julgamento, o tribunal estava envolto numa tensão estranha. Tatsuzaki, no banco dos réus, já não era o chefe da máfia de olhar feroz.
Tinha o rosto marcado, os olhos baixos, e olhava para a mãe sentada na bancada como se fosse a única luz na escuridão. Nas alegações finais, Tatsuzaki recusou o discurso preparado pelos advogados. Levantou-se e voltou-se para a mãe. “Senhor juiz.
Não pretendo justificar os meus crimes. Vivi como lixo a vida inteira e mereço o castigo. Durante toda a minha vida, odiei um fantasma: a mãe que nunca conheci. Porque me abandonou?
Porque estive sempre sozinho? Esse ódio sustentou-me. Mas a mulher a quem tanto desejei encontrar… foi aquela que bati com estas mãos sujas. ”
As lágrimas caíam-lhe em silêncio.
“Mãe, mesmo sem saber, fiz algo que nenhum ser humano pode perdoar. Sei que nenhum castigo pode lavar a minha culpa. Por isso, peço ao tribunal a pena mais severa possível. É a única forma de pagar à minha mãe.
”
Sentou-se e curvou-se profundamente diante dela. O juiz anunciou a sentença: cinco anos de prisão. “O réu demonstrou profundo arrependimento e a vítima, sua mãe, não pede punição. No entanto, a violência contra idosos não pode ser tolerada, qualquer que seja a razão.
Que estes cinco anos sirvam para expiar o passado e reconstruir uma vida. ”
Ao sair do tribunal, Ami amparou a avó. Yoshie viu o filho ser levado pelos guardas. — Ele vai ficar cinco anos preso, outra vez sozinho.
— A voz tinha tristeza, mas não ódio. — Avó, ele esperou cinquenta e sete anos pela mãe. Não vai ter dificuldade em esperar mais cinco. Desta vez, prometo, não vou fugir.
Ami abraçou a avó. No fim daquela batalha pela justiça, encontrara um desfecho diferente de qualquer vitória militar. Era uma história sobre perdão e amor, maiores do que qualquer sentença. Cinco anos depois, diante do portão de uma prisão em Chiba, Yoshie esperava, com o cabelo mais branco e o rosto mais enrugado, mas com uma paz nova nos olhos.
Ao lado dela, Ami, agora promovida a sargento-ajudante, apoiava a avó. O portão de ferro abriu-se com um ranger pesado. Tatsuzaki saiu, envelhecido, com os cabelos grisalhos, sem qualquer traço da brutalidade antiga. Apenas um homem marcado pelo remorso.
Viu a mãe e parou. Não conseguiu aproximar-se. Ficou imóvel, a chorar em silêncio. Foi Yoshie quem deu o primeiro passo.
Sem dizer nada, agarrou as mãos do filho, ásperas e calejadas. — Kenji. Vamos para casa. Tatsuzaki soluçou e escondeu o rosto no ombro da mãe.
Depois de mais de sessenta anos de desvio, finalmente voltara para casa. A nova vida de mãe e filho foi silenciosa e desajeitada. Havia anos de silêncio e feridas entre eles. Tatsuzaki trabalhava numa pequena oficina de mobiliário apresentada por Takahashi.
Acordava antes do amanhecer, saía para o trabalho e, ao entardecer, sentava-se à mesa que a mãe preparava. Um dia, ao vê-la a preparar conservas, as suas mãos pararam. O molho vermelho, o repolho… as imagens daquele dia no comboio voltaram-lhe à memória. Os olhos encheram-se de lágrimas.
— Kenji. Vem cá. Ajuda a tua mãe. Ele obedeceu, em silêncio.
Sentou-se ao lado dela e, com as mãos trémulas, começou a untar as folhas de repolho com o preparado. Mãe e filho, sem dizerem nada, prepararam conservas juntos. Aquele gesto simples tornou-se o seu ritual silencioso de cura. A primavera chegou.
Tatsuzaki levou a mãe a passear de comboio. Escolheu deliberadamente a linha Yamanote. Sentou-a no assento preferencial e ficou de pé à sua frente, como um guarda-costas. Um jovem ruidoso tentou sentar-se no lugar, mas cruzou o olhar com Tatsuzaki.
O rapaz franziu o cenho. Tatsuzaki não gritou, nem ameaçou. Falou com uma calma firme, sem violência:
— A minha mãe está sentada aqui. Importava-se de fazer menos barulho?
O jovem desviou o olhar, envergonhado. Naquele momento, Tatsuzaki separou-se definitivamente do homem que fora. Ami, de licença, visitou a avó. Os três — avó, tio e neta — jantaram juntos.
Já não havia sombras de tragédia sobre a mesa. Apenas a paz conquistada com esforço. No fim da refeição, Tatsuzaki dirigiu-se a Ami:
— Ami… ou melhor, sargenta Saitou. Obrigado por destruíres a minha vida.
Se não fosses tu, eu teria morrido sem nunca saber que tipo de besta fui. Salvaste a minha alma. Obrigado. Ami ouviu em silêncio.
O treino das Operações Especiais ensinara-lhe a neutralizar inimigos e alcançar objetivos. Mas aquela missão ensinara-lhe algo mais: que a verdadeira justiça não termina na punição do mal, mas na possibilidade, por mais pequena, de esse mal se transformar em bem. No parque, o sol poente aquecia o caminho. Yoshie caminhava devagar, apoiada no braço do filho, que agora era o seu bastão mais seguro.
As cicatrizes do passado não tinham desaparecido por completo, mas já não eram feridas. Eram marcas de uma longa e dolorosa jornada, provas de que ambos tinham finalmente regressado um ao outro. Ami observava de longe, com um sorriso tranquilo nos lábios. Depois, virou-se e seguiu o seu próprio caminho.
O julgamento terminara. A redenção começara. A sua missão estava, por fim, cumprida.


