Era uma quinta-feira à noite, daquelas em que o vento sopra morno vindo do mar e a gente acha que nada de mal pode acontecer. Voltei da casa da minha amiga Dalva mais cedo do que o costume, porque tinha esquecido o remédio da tensão em cima do criado-mudo. Estacionei o carro na rua de trás, como fazia sempre que não queria acordar ninguém, e entrei pela porta da cozinha com a chave reserva. Foi nesse instante, naquele segundo exato em que pisava no chão frio da minha própria casa, que a minha vida se partiu em duas.

A luz da copa estava acesa e a voz da minha filha Renata cortou o ar como uma navalha. – Já está tudo certo, Cláudio. Coloquei o pó no chá de camomila dela. Ela toma todos os dias antes de dormir.
Em duas semanas, no máximo três, ninguém vai desconfiar de nada. Vai parecer um derrame, um enfarte, qualquer coisa de velha. Eu parei. Parei como se alguém me tivesse arrancado os pés do chão e me prendido no ar.
Encostei a mão na parede da despensa e senti o coração disparar tanto que pensei que fosse cair ali mesmo, morta, exatamente como ela queria. Mas qualquer coisa dentro de mim, talvez a mulher do interior que a minha mãe criou no sertão, segurou-me as pernas. Eu não podia cair. Não podia respirar alto.
Não podia sequer chorar. A voz do meu genro Cláudio veio a seguir, baixa e calma, como quem fala de negócios rotineiros. – Conseguiste falar com o tabelião? – Está tudo agendado, meu amor – respondeu Renata, com aquela voz de menina que usava quando me pedia dinheiro emprestado.
– Assim que ela morrer, o inventário vai correr rápido. Como sou filha única reconhecida, herdo tudo. A casa, o apartamento que o pai deixou, a poupança, os imóveis no Cabo. Tudo.
– E o Rafael? – perguntou Cláudio. Senti o peito apertar ao ouvir o nome do meu filho mais novo, Rafael, que vivia em Portugal há doze anos, que só vinha visitar-me no Natal, mas que me ligava todos os domingos sem falta. – O Rafael não é problema.
A mãe deserdou-o quando ele se casou com aquela portuguesa contra a vontade dela. Está tudo escrito no testamento que ela fez em 2018. Eu vi com os meus próprios olhos. Aquilo era mentira.
Uma mentira monstruosa. Eu nunca tinha deserdado o Rafael. Nunca. O testamento que ela vira era um rascunho que eu fizera no calor de uma briga e rasgara na mesma semana.
Mas Renata, a minha filha, a menina que eu carregara nove meses na barriga, que eu amamentara, a quem eu velara as febres, que eu sustentara na faculdade depois de o pai morrer, estava ali, na minha cozinha, a planear matar-me e a roubar tudo ao irmão. Não sei como tive forças para sair dali sem fazer barulho. Saí descalça pela porta da cozinha, com os sapatos na mão, como uma adolescente que volta de uma festa proibida. Entrei no carro com as mãos a tremer tanto que precisei de três tentativas para meter a chave na ignição.
Só depois de virar a esquina, só depois de me afastar duas ruas daquela casa que eu comprara com o suor do meu falecido marido, é que encostei o carro numa árvore e chorei. Chorei como nunca chorei na vida. Nem quando perdi o meu António, em 2009. Mas não chorei muito tempo.
A mulher que chorava ali, encostada ao volante, já não era a Aparecida tola que tinha entrado em casa. Era outra mulher. Uma mulher que acabara de descobrir que a própria filha era sua inimiga. E inimigo, meus queridos, não se enfrenta com lágrimas.
Inimigo enfrenta-se com inteligência. Limpei o rosto com as costas da mão. Respirei fundo três vezes, como a minha mãe me ensinara a fazer em criança quando tinha medo no escuro, e liguei o carro. Mas em vez de voltar para casa, em vez de procurar uma amiga, em vez de procurar um padre, fui direito ao lugar onde nenhuma mãe quer ir contra a própria filha.
Fui à esquadra da Boa Vista. O delegado de plantão era um homem moreno, alto, de uns cinquenta anos, com bigode grisalho e olhos cansados de quem já viu muita maldade. Chamava-se doutor Hermes Cavalcante. Quando entrei na sala dele e contei tudo o que ouvira, olhou para mim em silêncio durante uns trinta segundos.
Depois levantou-se, fechou a porta, mandou trazer um copo de água e disse com uma voz mansa que nunca hei de esquecer:
– Dona Aparecida, a senhora teve muita coragem de vir até aqui. A maioria das mulheres na sua situação prefere acreditar que ouviu mal, prefere achar que é coisa da cabeça, e acaba por morrer convencida de que se enganou. Aquelas palavras deram-me uma força que eu não sabia que ainda tinha. Olhei para o delegado e respondi:
– Doutor, eu não ouvi mal.
Eu ouvi a minha filha a planear matar-me. E vim aqui não para chorar. Vim para que ela e o marido sejam presos com prova na mão. O que é que o senhor precisa de mim?
Ele sorriu pela primeira vez, um sorriso pequeno mas verdadeiro, e explicou-me que, para prender Renata e Cláudio com provas concretas, precisávamos de três coisas. A substância que ela estava a colocar no meu chá tinha de ser identificada em laboratório. Eu precisava de continuar a agir normalmente em casa durante alguns dias, sem beber nada do que ela me oferecesse. E precisávamos de gravar uma conversa em que ela admitisse o crime.
Era arriscado, mas era a única forma de ela não escapar com um bom advogado. Aceitei. Aceitei sem pensar duas vezes. Naquela mesma noite, depois de duas horas na esquadra, voltei para casa.
Entrei pela porta da frente, a fazer barulho, como se regressasse cansada de uma noite normal na casa da Dalva. Renata veio receber-me na sala com aquele sorriso doce que eu agora sabia ser veneno puro. Cláudio estava no sofá a ver televisão, com os pés em cima da mesa de mogno que o meu António comprara em Caruaru. – Mãe, demorou, hem?
Já lhe preparei o seu chazinho de camomila, do jeito que a senhora gosta. Está ali na mesa da cozinha a arrefecer. Olhei para ela, olhei nos olhos dela e sorri. O melhor sorriso que dei na vida.
– Que filha boa que eu tenho, minha Renatinha. Mas hoje tomei um café com leite na casa da Dalva e fiquei enjoada. Vou deixar o chazinho para amanhã. – Está bem.
Vi o olhar dela passar rapidamente para Cláudio. Foi um olhar de meio segundo, mas eu vi. Era o olhar de duas pessoas que estavam a contar os dias para alguém morrer e que tinham acabado de perder mais um dia. Subi para o quarto, tranquei a porta e, pela primeira vez em vinte e tal anos, encostei uma cadeira à maçaneta.
Antes de dormir, peguei no telemóvel e mandei uma mensagem ao meu filho Rafael, em Portugal:
“Filho, não digas nada a ninguém, nem à tua mulher, mas preciso muito que venhas para Recife o mais depressa possível. A tua mãe está em perigo. Explico-te tudo quando chegares. Amo-te.
”
Ele respondeu em dois minutos:
“Estou a embarcar amanhã, mãe. O que é que se passa? ”
“Quando chegares, conto. Por enquanto, não fales com a tua irmã.
”
Não dormi nessa noite. Fiquei a olhar para o teto, a lembrar-me da Renata pequena, de tranças e dente caído, a correr no quintal atrás do irmão. Lembrei-me do dia em que ela se formou em Direito, em 2007, e eu chorei tanto na cerimónia que ela teve de me dar um lenço. Lembrei-me do dia em que me apresentou o Cláudio, há nove anos, dizendo que ele era o homem da vida dela.
Em que momento, meu Deus? Em que momento aquela menina se transformou naquela mulher que queria matar-me por uma casa em Boa Viagem e um apartamento no Cabo? Quanto vale a vida de uma mãe, meus queridos? Quanto?
Na manhã seguinte, fingi que estava tudo normal. Tomei o pequeno-almoço com Renata e Cláudio na varanda. Falei do tempo, falei da novela, falei até de receita de bolo. Por dentro estava em pedaços, mas por fora era a mesma velha tola de sempre.
Quando Renata saiu para o escritório, peguei no frasco do chá de camomila da despensa, meti-o numa sacola e levei-o diretamente para a perícia, como o doutor Hermes me tinha orientado. O resultado saiu ao fim de três dias. E o que estava no meu chá, meus queridos, não era apenas um remédio para parecer um derrame. Era uma mistura de digoxina em altíssima concentração, um medicamento usado para problemas de coração que, numa mulher da minha idade, sem qualquer problema cardíaco real, provocaria uma arritmia fatal em poucas semanas de uso contínuo.
E o pior: praticamente indetetável numa autópsia mal feita. Quem comprou? Onde comprou? Como conseguiu tudo aquilo?
A investigação trataria de descobrir nos dias seguintes. Rafael chegou no domingo de manhã. Fui buscá-lo ao aeroporto sozinha, de táxi, para não despertar suspeitas em Renata. Quando ele me viu, com aquela cara de cansaço de doze horas de voo, não aguentei e abracei o meu filho como se ele tivesse seis anos outra vez.
E foi dentro daquele táxi, em pleno engarrafamento da BR-101, que lhe contei tudo. O meu filho ouviu em silêncio, sem me interromper uma vez. Quando terminei, virou-se para mim com os olhos vermelhos e disse:
– Mãe, eu sempre soube que havia qualquer coisa de errado com a Renata. Sempre.
Mas nunca pensei que chegasse a este ponto. A senhora tem o meu apoio em tudo. Em tudo, ouviu? E vou ficar aqui até esta história ter um fim.
Hospedei o Rafael em casa da Dalva, para Renata não saber que ele estava no Brasil. E começámos a executar o plano do delegado. Durante mais cinco dias, vivi naquela casa como uma atriz. Cinco dias a dormir com a cadeira encostada à porta.
Cinco dias a sorrir para a mulher que queria a minha morte. Cinco dias a dizer “obrigada, minha filha” todas as vezes que ela me trazia o chá envenenado, que eu fingia beber e depois deitava no autoclismo. Mas precisávamos da gravação. Sem a gravação, qualquer bom advogado podia desmontar a história.
Renata era advogada, sabia exatamente como se defender. Precisávamos de uma confissão. E foi aí que tive uma ideia que nem o delegado tinha pensado. Numa tarde de quarta-feira, depois de cinco dias daquele inferno, chamei Renata para conversar na varanda.
Escondi o telemóvel no bolso do vestido, a gravar, e comecei a falar com a voz mais frágil que consegui fingir. – Minha filha, eu estou a sentir-me muito mal estes dias. Tonta, com falta de ar. Acho que tenho algum problema no coração.
Estou a pensar em ir ao médico amanhã, fazer uns exames. Vi o rosto dela mudar. Vi o medo passar-lhe pelos olhos. Não o medo de me perder.
O medo de eu descobrir. – Mãe, não precisa de ir ao médico, não. Deve ser só cansaço. A senhora já tem uma idade.
É normal. – Não, minha filha, eu vou. E olha, já que estamos a conversar, quero dizer-te uma coisa. Pensei muito estes dias e decidi que vou mudar o meu testamento.
Vou deixar tudo dividido em partes iguais entre ti e o Rafael. Eu sei que não gostas dele, mas ele é meu filho também e não quero morrer sabendo que fui injusta. A reação dela foi instantânea. Ficou pálida, levantou-se da cadeira, andou de um lado para o outro na varanda e, quando falou, a voz já não era de filha.
Era a voz de uma estranha. – Mãe, a senhora não pode fazer isso. A senhora prometeu que ia deixar tudo para mim. Fui eu a única que ficou aqui a tomar conta de si.
O Rafael abandonou-a há doze anos. Ele não merece nada. Nada. – Renata, eu sou a mãe.
Eu decido o que faço com o que é meu. – A senhora não vai mudar testamento nenhum, ouviu? – gritou ela, com a voz rouca e raivosa, sem disfarce. – A senhora nem vai chegar a tempo de mudar nada.
Foi a frase. Exatamente a frase de que eu precisava. – Como assim não vou chegar a tempo, minha filha? Estás a ameaçar-me?
E foi aí que ela perdeu o controlo. Perdeu mesmo. Cláudio não estava em casa e ela estava sozinha comigo. E ela tinha esperado tanto tempo, planeado tanto, que, ao ver tudo a escorrer-lhe entre os dedos, explodiu.
– Sabe de uma coisa, mãe? Vou-lhe dizer a verdade. Acha que eu a fui tratar todos estes anos por amor, por pena? Eu fui tratá-la porque sou advogada, porque sei como funciona o sistema, porque sabia que, se ficasse perto, herdava tudo.
E acha que este chá que lhe dou todos os dias é só camomila? Acha mesmo? Eu venho-lhe a dar digoxina há três semanas, mãe. Três semanas.
E a senhora é tão burra que nem percebeu. Em mais uns dias, tinha um enfarte bonito, morria a dormir e eu finalmente podia viver a vida que mereço. Mas agora vem com essa de mudar o testamento? Não, mãe.
Eu não a vou deixar fazer isso. Hoje mesmo a sua dose vai ser dobrada. A senhora não chega ao médico amanhã, ouviu? Olhei para a minha filha, para aquela mulher de quarenta e quatro anos, advogada, mãe de uma menina de oito, casada, formada, de classe média, que ali estava a confessar que queria matar-me.
E senti naquele momento uma coisa que nunca tinha sentido na vida. Não foi raiva. Não foi ódio. Foi pena.
Pena profunda de uma alma podre que eu própria tinha gerado dentro de mim. – Renata, sabes qual é o pior, minha filha? – disse eu, com a voz calma, sem tremer. – O pior é que achas que o dinheiro vale mais do que uma mãe.
E o mais triste é que vais descobrir daqui a pouco que dinheiro nenhum, casa nenhuma, apartamento nenhum te vai dar o que acabaste de perder. Ela olhou para mim sem entender. E foi nesse momento exato que a campainha tocou. Eram quatro da tarde.
Renata foi atender, julgando que era a empregada que voltava do supermercado. Quando abriu a porta, viu o doutor Hermes Cavalcante com mais dois investigadores e, atrás deles, encostado ao carro estacionado na rua, o irmão Rafael, de braços cruzados, a olhar para ela. O sorriso dela desapareceu. Sumiu.
Vi a cor fugir-lhe do rosto em tempo real. Vi as mãos a tremer, a respiração a ficar curta e vi, pela primeira vez em décadas, a Renata pequena, de tranças, aparecer naqueles olhos, aterrorizada, a pedir socorro a uma mãe que ela própria tentara matar. – Renata Aparecida Carvalho de Albuquerque – disse o delegado, com voz formal. – A senhora está presa por tentativa de homicídio qualificado contra a sua mãe, Aparecida Carvalho de Albuquerque.
A senhora tem o direito de permanecer em silêncio. Tudo o que disser pode e será usado contra si em tribunal. Renata olhou para mim. Não disse nada, mas no olhar dela havia uma pergunta.
Uma única pergunta. Mãe, foste tu? E eu, com toda a coragem que a minha mãe me deu, sustive o olhar dela e respondi sem abrir a boca. Fui eu.
Sim. Foi a mãe que quiseste matar. Cláudio chegou a casa duas horas depois, sem saber de nada. Foi preso na própria sala, a abrir o frigorífico à procura de uma cerveja.
Quando viu os polícias, tentou fugir pelo quintal. Foi apanhado antes de saltar o muro do vizinho. A perícia descobriu depois que a digoxina fora comprada por ele numa farmácia clandestina em Olinda, com receita falsificada. Os áudios do meu telemóvel, somados aos áudios que os polícias conseguiram obter da casa nos dias anteriores, mais o resultado da perícia do meu chá, mais o testemunho de uma vizinha que vira Renata a mexer na minha despensa em horas estranhas, formaram um conjunto de provas que nenhum advogado do mundo conseguiria desmontar.
O processo correu depressa. Renata foi condenada a dezoito anos de prisão em regime fechado. Cláudio, considerado coautor, pegou em quinze anos. A inscrição dela na Ordem dos Advogados foi cassada.
Os bens do casal foram bloqueados para indemnizar a vítima, ou seja, eu. E a netinha, a Manuela, a minha neta de oito anos, veio morar comigo. A família do Cláudio é boa gente, mas a mãe dele tem oitenta anos e não tem condições de criar uma criança. E eu, mesmo com o coração em pedaços, sou a avó.
Sou a avó que sempre fui. E aquela menina não pode pagar pelo crime dos pais. Faz oito anos que tudo isto aconteceu. Hoje tenho sessenta e nove.
A casa de Boa Viagem ainda está no meu nome. O apartamento do Cabo aluguei e o dinheiro vai todo para uma poupança em nome da Manuela, para o dia em que ela fizer dezoito anos. O Rafael acabou por se mudar para Recife com a esposa portuguesa, a Inês, que é uma das mulheres mais doces que conheci na vida. Mora a quatro ruas de mim.
Têm um filho de seis anos, o Mateus, que vem almoçar a minha casa todos os sábados com a Manuela. Eu não perdi uma filha. Ganhei uma filha que estava em Portugal e que eu nem tinha tido coragem de conhecer bem, e ganhei dois netos lindos que enchem a minha sala de gritaria. A Renata mandou-me uma carta da prisão há três meses.
Uma carta longa, escrita à mão, a pedir perdão, a dizer que se arrependeu, que pensa em mim todos os dias, a pedir que eu a vá visitar. Li a carta inteira sentada na minha poltrona, com a Manuela a brincar no chão da sala. Quando terminei, dobrei-a com cuidado, meti-a no envelope, peguei num isqueiro e queimei-a na pia da cozinha. Não por ódio, meus queridos.
Não. Já não tenho ódio dela. Mas não posso. Sou a avó daquela menina que ela pôs no mundo e abandonou.
Sou a única mãe que aquela criança vai ter pelos próximos dezassete anos. Não posso voltar lá, ver aquele rosto e arriscar abrir uma ferida que custou a minha vida inteira a cicatrizar. Rezo por ela todas as noites antes de dormir. Peço a Deus que tenha misericórdia da alma da minha filha, que ela encontre lá dentro daquela prisão alguma forma de paz.
Mas rezo de longe. Muito longe. Porque uma mãe pode perdoar quase tudo, meus queridos. Quase tudo.
Mas uma filha que olha a mãe nos olhos e lhe põe veneno no chá durante três semanas seguidas, a calcular o dia em que ela vai morrer, essa filha cruzou uma linha que nem o coração de mãe consegue desfazer. A Manuela pergunta-me às vezes pela mãe, e eu conto-lhe a verdade. Não toda a verdade, mas a suficiente. Digo-lhe que a mãe dela fez uma coisa muito errada, que magoou muita gente e que, por isso, precisa de ficar um tempo longe, a pagar pelo que fez.
A Manuela é inteligente. Entende. Tem fotografias da mãe no quarto, escreve cartinhas para a mãe nos aniversários, e eu mando essas cartinhas para a prisão sem as ler. Porque essa parte, meus queridos, essa parte é entre mãe e filha.
Eu já não tenho nada a ver com isso. O que aprendi com tudo isto? Aprendi que a ganância é o pior veneno que existe. Pior do que a digoxina, pior do que o arsénico, pior do que tudo o que se possa pôr num chá.
A ganância destrói a alma da pessoa antes de destruir os outros. A Renata morreu antes mesmo de eu descobrir o plano dela. A Renata das tranças e do dente caído tinha morrido há muitos anos, e eu só não tinha visto. Eu queria tanto que ela fosse boa, que me amasse, que fosse a filha que sonhei, que fechei os olhos a tudo aquilo em que ela se estava a tornar.
Aprendi também que mãe-coruja é coisa perigosa. Coruja demais, a gente fica cega. E mãe cega não vê o lobo dentro da própria casa. A gente pensa que o filho que carregámos na barriga é nosso, é parte de nós.
Não é. Um filho é um ser humano com escolhas próprias. E há seres humanos que escolhem ser bons. E há seres humanos que escolhem ser monstros.
E não é amor de mãe que muda isso. Quem diz que muda é mentiroso, ou é alguém que nunca passou pelo que eu passei. Aprendi a confiar na minha intuição. Aquela vozinha lá dentro que muitas mulheres da nossa geração foram ensinadas a calar.
Foi ela que me salvou. Foi ela que me fez voltar pela porta de trás naquela noite. Foi ela que me fez não beber o chá. Foi ela que me fez correr para a esquadra em vez de chorar num travesseiro.
Mulher, ouve a tua intuição. Ouve. Passámos a vida toda a ser treinadas para duvidar de nós mesmas, para achar que somos exageradas, dramáticas, malucas. Não somos.
Quando o teu corpo grita perigo, ele tem razão. Acredita nele. E aprendi, por último, que nunca é tarde para começar de novo. Aos sessenta e sete anos, eu achava que a minha vida já estava escrita, que era só esperar a velhice chegar, esperar os netos no Natal, esperar o fim.
Não era. Aos sessenta e sete anos, reconstruí tudo. Conheci uma nora maravilhosa. Aproximei-me do meu filho.
Estou a criar uma neta com amor e disciplina. Voltei a estudar. Faço aulas de pintura na Universidade da Terceira Idade. Tenho amigas novas.
Viajei para Portugal pela primeira vez no ano passado. Vou a Fernando de Noronha em janeiro com a Dalva. A vida não acabou quando descobri a verdade sobre a Renata. A vida começou.
Porque até aquele dia eu vivia uma mentira. Viviam a pisar em ovos dentro da minha própria casa, a tratar uma filha adulta como criança, a sustentá-la a ela e ao marido com a reforma que o meu António me deixou. Eu não vivia. Eu era um meio de transporte para a felicidade dela.
E uma mulher que vira meio de transporte para a felicidade dos outros, meus queridos, essa mulher já não é mulher. É objeto. E objeto, mais cedo ou mais tarde, é deitado fora. Hoje já não sou objeto.
Hoje sou a Aparecida. Sou a avó da Manuela. Sou a mãe do Rafael. Sou a sogra da Inês.
Sou a amiga da Dalva. Sou aluna de pintura. Sou a viúva digna do António. Sou viva.
Estou viva. E vou continuar viva, com a graça de Deus, pelos próximos vinte, trinta anos, a ver esta menina crescer, a ver o Mateus crescer, a ver o Brasil mudar, a ver a vida acontecer. Para vocês, mulheres que me estão a ouvir agora, que estão na cozinha, na lavandaria, no carro, a caminho do trabalho, que sentem no peito que há qualquer coisa errada dentro da própria casa, digo uma coisa só. Confia.
Confia em ti. Não cales a voz que grita lá dentro. Não bebas o chá que não cheira bem. Não assines o papel que aparece de repente.
Não dês a senha do banco a ninguém. Não. Tu não és exagerada. És uma mulher que está a ver o que precisa de ver.
E se for preciso, vai à esquadra, vai ao médico, vai para casa de uma amiga. Mas sai. Sai da água quente antes de ela ferver. Porque o pior cego não é o que não quer ver.
O pior cego é a mãe que ama tanto um filho que prefere morrer envenenada a admitir que ele virou monstro. E essa cegueira, meus queridos, mata mais mulheres no Brasil do que o enfarte, do que o cancro, do que a violência na rua. Mata em silêncio, dentro de casa, no chá da tarde, no remédio da noite. Não morras calada.
Não morras cega. Não morras a fingir. A vida é curta demais. E a tua vida vale mais do que qualquer herança, qualquer casa, qualquer paz mentirosa.
Acredita em mim. Eu sei do que estou a falar. Eu sou a dona Aparecida, de Recife, sessenta e nove anos. Viva.
Livre. E, finalmente, finalmente, em paz.


