O caixão do Aurélio já estava a descer quando o telemóvel do meu filho começou a tocar. Uma, duas, três vezes. O Murilo estava ao meu lado com um punhado de terra na mão e os olhos tão vermelhos que pareciam ter envelhecido dez anos ali mesmo. O padre ainda dizia as últimas palavras e eu ouvia as cordas a correr pela madeira, o atrito surdo da caixa a raspar na parede da cova, gente a fungar atrás de mim e aquele telemóvel a vibrar no bolso do meu filho, como se o mundo tivesse decidido que nem um enterro merecia silêncio.

Tinha 59 anos e 36 de casada. Naquela manhã de agosto, no cemitério municipal do Quicumbi, em São João del-Rei, descobri que o luto da gente pode ser interrompido por qualquer pessoa que tenha o número do nosso filho. O céu estava daquele azul lavado que só aparece no inverno mineiro, com o ar tão seco que racha o canto da boca. Fazia frio de madrugada e calor de meio-dia, coisa de cidade encravada num vale a quase mil metros de altitude, espremida entre a serra do Lenheiro e a serra de São José.
O meu marido dizia que São João del-Rei tinha duas estações: a do comboio e a do frio. Ele estava no meio de uma piada dele e eu estava a enterrá-lo. O Murilo olhou para o ecrã. Eu também.
Era a Priscila. — Atende — disse eu. Ele olhou para mim sem perceber. — Mãe, agora?
Se ela ligou três vezes enquanto o meu pai está a descer, deve estar a arder. Atendeu com a mão a tremer. — Priscila, eu… O dedo dele esbarrou no altifalante e a voz dela cortou o cemitério inteiro.
— Tens noção de que a reunião é daqui a uma hora? — Minha família está à espera. O Murilo fechou os olhos. — Priscila, estou a enterrar o meu pai e ele vai levantar-se do caixão se ficares mais meia hora aí.
Foi como se até o padre tivesse deixado de respirar. A Priscila continuou, agora mais alta, mais clara, como quem fala para uma sala e não para uma pessoa. — Pela primeira vez na tua vida, põe-me acima do teu pai. Vem para a reunião da minha família.
Uma hora. O silêncio de velório é o silêncio mais alto que existe. Olhei para o buraco aberto no chão, para a caixa de madeira do homem com quem tinha dividido mais de três décadas. O Aurélio não era homem de escândalos.
Se ainda estivesse vivo, provavelmente baixava os olhos, coçava a barba grisalha e dizia qualquer coisa curta e sem sal, só para impedir que alguém se desentendesse ali à frente dos outros. Mas o Aurélio já não estava vivo, e eu estava. Tirei o telemóvel da mão do meu filho. — Priscila, é a Lourdes.
Do outro lado, o silêncio mudou de temperatura. — Dona Lourdes, não sabia que estava no altifalante. — Agora sabe. — Estou nervosa.
— A senhora não entende. — Queres o Murilo nessa reunião daqui a uma hora? — Quero. — Ótimo.
Nós os dois vamos. — Como assim? — Nós os dois, exatamente como parece. Desliguei.
O Murilo encarou-me. — Mãe, a senhora não precisa de ir. — Preciso hoje? Não, principalmente hoje.
Devolvi-lhe o telemóvel e abri a mão dele, que ainda segurava o punhado de terra vermelha. — Atira. Ele atirou. A terra bateu na tampa com um som seco, daqueles que a gente nunca mais desaprende.
Peguei no meu próprio punhado, deixei-o cair devagar e falei baixinho, só para ele ouvir. — O teu pai não merece que a última voz que ouças aqui seja a dela. O Murilo começou a chorar de novo. Passei a mão no ombro dele, senti o osso duro por baixo do casaco e lembrei-me de quando aquele ombro cabia inteiro na palma da minha mão.
— Termina de te despedir. Depois vamos dar à Priscila exatamente aquilo que ela quer. Quem ouviu aquela frase pensou que eu tinha enlouquecido de dor. Talvez tivesse mesmo andado um pouco fora do lugar.
O luto faz a cabeça da gente procurar o último dia em que tudo parecia normal, como quem procura uma chave no bolso de um casaco velho. Doze dias antes daquele enterro, no último almoço de domingo que o Aurélio fez comigo, eu levava as chávenas para a cozinha quando esbarrei de leve numa cadeira da sala. A mala da Priscila estava pendurada no encosto. Caiu.
O fecho abriu quando bateu no chão e metade das coisas espalhou-se pelo tapete. Abaixei-me para apanhar tudo antes que alguém pisasse. Batom, carteira, chaves, um pacote de lenços, moedas e uma sacolinha pequena de farmácia. Quando peguei na sacolinha, qualquer coisa escorregou para fora.
Era um teste de gravidez digital daqueles com janelinha, já usado. Caiu virado para cima, com a letra bem clara no ecrã. Não grávida. Olhei por um segundo, mais por reflexo do que por curiosidade.
Peguei no teste, coloquei-o de volta na sacolinha e guardei tudo dentro da mala, exatamente como estava. Foi quando ouvi os passos da Priscila a vir do corredor. — Aconteceu alguma coisa? Levantei-me.
— A tua mala caiu. Ela olhou para o chão já limpo. — Nem vi. — Já guardei tudo.
— Obrigada. Pegou na mala e foi atrás do Murilo, como se nada tivesse acontecido. Guardei aquilo no fundo da cabeça, no lugar onde a gente guarda as coisas que não são da nossa conta. Achei que era assunto do casal.
Achei que se fosse importante ela contaria. Achei muita coisa naquele domingo. Pouco depois os dois foram embora. O Aurélio ficou comigo na cozinha.
Eu lavava as últimas chávenas quando senti os braços dele à minha volta da cintura. — Que foi? — Nada. — Aurélio, eu conheço esse teu nada há 36 anos.
Ele riu baixinho, daquele riso de peito. — Estava a olhar para ti e precisava de me agarrar para continuar a olhar. Aproveitar enquanto ainda me deixas. Dei uma cotovelada de leve.
Cheirava a serragem e a sabonete de glicerina, sempre os dois ao mesmo tempo, mesmo ao domingo. — Homem tolo. Ele ficou sério, de repente, e encostou o queixo no meu ombro. — Lourdes.
— Hum. — Passas a vida inteira a abrir espaço para toda a gente. Para mim, para o Murilo, para quem aparece a precisar. Só não desapareças para caberes na vida dos outros.
Eu ri mais para tirar o peso da conversa do que por achar graça. — Estás muito dramático para quem acabou de comer três pedaços de pudim. — Dois. — Três.
O terceiro era pequeno. Foi a última discussão tola que tive com o meu marido. Doze dias depois, com a terra do Quicumbi ainda no salto do sapato, foi daquela cozinha que me lembrei, da mão dele na minha cintura, da voz dele perto do meu ouvido. Não desapareças para caberes na vida dos outros.
Eu ainda não fazia a menor ideia do que a Priscila queria naquela reunião, mas naquele dia, pelo menos uma coisa podia fazer pelo meu marido. Podia não desaparecer. Porque se ela precisava de tirar o Murilo do enterro do próprio pai para o colocar diante da família dela, não era para discutir cor de cortina. No carro, ele conduziu sem falar.
Descemos a Avenida Leite de Castro com as janelas fechadas. Passámos a ponte sobre o córrego do Lenheiro e o sol batia naquelas telhas coloniais de um jeito que doía. No primeiro sinal vermelho, o Murilo murmurou:
— Ela não é assim, mãe. Olhei pela janela, com a mão fria.
— Não disse que era. — Mas está a pensar. — Estou a pensar no teu pai. Ele apertou o volante.
— Ela deve estar muito nervosa com alguma coisa. Passou a noite toda estranha, não dormiu direito, ficava a levantar-se, a mexer no telemóvel. — E tu perguntaste? — Perguntei.
Disse que era coisa da família dela. O sinal abriu. — Então, daqui a pouco descobrimos. Ele virou o rosto para mim por um segundo.
— A senhora vai brigar com ela hoje? — Enterrei o meu marido, Murilo. Não vou desperdiçar energia a brigar com ninguém. — Então porque é que vai?
— Porque ela fez questão. Isso era verdade, mas não era tudo. Uma hora depois de ouvirmos a voz da minha nora por cima do caixão, entrei na casa dos pais dela, na Colônia do Marsal, com a mesma roupa preta do cemitério, e descobri que o luto tinha hora marcada para acabar. A casa do Valdir e da Sônia parecia preparada para um aniversário que tinha desistido de ser feliz a meio do caminho.
Havia balões dourados presos no aparador, uma toalha clara na mesa, taças alinhadas em fila, pratinhos com salgadinhos de festa e uma garrafa de espumante virada de um jeito tão calculado que o rótulo quase encarava a parede. O Valdir abriu a porta antes de tocarmos à campainha. — Murilo, finalmente, entra, meu rapaz. Dona Lourdes, a senhora também veio.
— Vim. Ele olhou para o meu vestido preto, depois para o meu filho. — Os meus sentimentos, claro. Situação terrível, terrível mesmo.
Eu cheguei agora da concessionária. A camioneta estava na revisão. Uma voz saiu da sala:
— Se o consogro morreu, deixa a camioneta fora disso, Valdir. A Bisa Neid estava sentada no sofá com as duas mãos apoiadas numa bengala que quase nunca usava para andar, mas adorava usar para apontar para as pessoas.
Era mãe do Valdir e avó da Priscila. Oitenta e quatro anos, ouvido perfeito e paciência nenhuma. Toda a gente a chamava Bisa desde que a primeira bisneta nasceu, para os lados de Ritápolis. Ela viu-me e abriu os braços.
— Lourdes, minha filha, vem cá. Fui até ela. A Neid segurou-me pelas duas mãos, que eram frias e leves como papel. — Homem bom, aquele teu.
Só isso. Não disse que Deus sabia o que fazia. Não disse que era melhor assim. Não disse que eu precisava de ser forte pelo meu filho.
Foi a frase mais respeitosa que ouvi naquele dia inteiro, e olha que tinha ouvido umas trezentas. A Sônia apareceu da cozinha com um conjunto bege claro e um lenço no pescoço. — Dona Lourdes, não esperava a senhora. — Eu percebi.
Ela travou por meio segundo, depois abriu um sorriso. — Não foi isso que quis dizer. É que a Priscila pediu o Murilo e ele veio. A Priscila surgiu no corredor.
Não parecia a mulher que tinha gritado ao telefone quarenta minutos antes. Cabelo preso, maquilhagem leve, blusa branca, calça preta, rosto sereno como água de tanque. Olhou para mim e eu vi a surpresa desaparecer tão rápido que outra pessoa nem teria notado. — Dona Lourdes.
— Priscila. Eu pedi ao Murilo para vir. Ele veio. Tu não especificaste que ele precisava de chegar órfão de pai e de mãe.
A Bisa Neid soltou um resmungo satisfeito daqueles que valem por um parágrafo inteiro. A Sônia ajeitou o lenço. — Bom, já que estamos todos aqui, talvez seja melhor não transformar um momento importante em… — Constrangimento?
— ajudei eu. — Eu ia dizer tensão. — Então diz tensão. O Murilo tocou-me no braço.
— Mãe… Olhei para ele e parei. Tinha prometido a mim mesma no caminho que não brigaria. Não naquele dia.
Não com o cheiro das flores da coroa ainda na roupa. A Priscila respirou fundo. — Vamos sentar. O Valdir bateu palmas uma vez.
— Isso. Vamos organizar. Cabe toda a gente. Esta sala é grande, igual à caçamba de uma camioneta.
Enches e nunca mais acaba. — Valdir — cortou a Sônia. — Por favor. — Estou só a fazer uma confraternização.
— Confraternização? — perguntou ela. — Foi o que eu disse. A Bisa Neid olhou para mim.
— Eles são assim, mesmo sem bebida. Sentei-me perto dela. O Murilo ficou ao lado da Priscila. A Sônia tirou um lencinho da mala, o que me chamou a atenção porque ninguém tinha começado a chorar ainda.
A Priscila pousou as mãos sobre os joelhos. — Eu queria que este anúncio fosse noutro momento. Olhei em volta para os balões dourados. Ela percebeu.
— A decoração foi ideia da minha mãe. A Sônia sorriu, emocionada antes da hora. — Dourado é uma cor nobre. — Claro — disse a Neid.
— Enterro de um lado, coroação do outro. — Vó, por favor. A Priscila estendeu a mão para o meu filho. — Amor, eu sei que hoje foi o pior dia da tua vida.
Ele baixou os olhos. — Mas talvez Deus tenha posto uma coisa muito bonita no nosso caminho justamente agora. Eu não tirei os olhos dela. A Priscila levou a mão à barriga lisa.
— Eu e o Murilo vamos ser pais. A Sônia começou a chorar no mesmo segundo. O lenço já estava aberto na mão dela há cinco minutos. O Valdir deu um pulo.
— Eu sabia. Eu sabia que havia coisa grande. Sônia, pega o espumante. — Estou com o espumante, Valdir.
— Então abre. O Murilo ficou imóvel. Por um instante, achei que ele tivesse percebido antes de toda a gente. Mas não.
O rosto dele desmontou-se. Levou as duas mãos à cara e chorou, de um jeito que não tinha chorado nem diante do caixão. Talvez porque ali, de repente, alguém tinha posto futuro no colo dele duas horas depois de lhe arrancar o passado. — É sério?
— perguntou. A Priscila assentiu. — É. Ele abraçou-a, agarrou a mulher como quem se afoga e encontra madeira.
— Por isso é que estavas assim hoje? A Priscila fechou os olhos no ombro dele. — Estava nervosa. Queria contar-te.
A minha mãe sabia, o meu pai sabia. Não sabia como esperar. O Murilo afastou-se um pouco. — E eu a brigar contigo ao telefone.
Em menos de cinco minutos, aquilo já tinha virado briga dos dois. A Priscila tocou-lhe no rosto. — Esquece. Estavas a sofrer.
Perdoa-me por hoje. Foi ali que eu percebi a primeira jogada de mestre da minha nora. A ligação monstruosa do funeral acabava de ganhar desculpa retroactiva. Ela não tinha arrancado o marido do enterro do pai porque era cruel.
Tinha feito porque estava grávida, nervosa, emocional, desesperada para contar. Pelo menos era assim que o Murilo passaria a lembrar para o resto da vida. A Sônia entregou uma taça de sumo de uva à filha. O Valdir abriu o espumante com um estalo que fez a cortina balançar.
A Neid assustou-se e bateu com a bengala no chão. — Precisa de dar um tiro? A criança ainda nem nasceu. — É uma celebração, mãe.
— De quê? Dessa magreza? No meu tempo, barriga anunciada já vinha a apontar. A Priscila sorriu.
— Estou no comecinho. O Valdir encheu as taças com aquele cuidado exagerado de quem serve coisa cara. — Este é importado, guardado para uma ocasião especial. Peguei na garrafa quando passou por mim.
Li o rótulo. Garibaldi. Rio Grande do Sul. — Se é do sul do Brasil, não é importado — disse eu.
A Sônia fechou os olhos por um segundo. — O Valdir usa a palavra de forma afetiva. A Bisa Neid cochichou no meu ouvido. — Eles importam até a vergonha de si mesmos.
Risquei pelo nariz. Foi a primeira vez que quase ri naquele dia. O Murilo ainda segurava as mãos da mulher. — De quanto tempo?
Vi um brilho rápido no olhar da Sônia, daqueles que a gente só reconhece depois, quando já é tarde. A Priscila respondeu sem hesitar. — Quase dois meses. Olhei para a minha nora.
Ela sustentou o meu olhar sem piscar. E eu, que doze dias antes tinha segurado nas mãos um teste digital a dizer não grávida dentro daquela mala, sorri e disse:
— Parabéns, minha filha. O Murilo levantou o rosto aliviado, porque no fundo estava com medo de que eu estragasse aquilo. Levantei-me também, fui até à Priscila e abracei-a.
Senti o perfume caro, o tecido frio da blusa e a barriga lisa a encostar na minha. O meu filho chorava atrás de nós. A tarde seguiu num teatro estranho. A Sônia discutia nomes de menino e de menina numa folha como jurada de concurso.
O Valdir falava de cadeirinha que cabia na caçamba. O Murilo perguntava se a Priscila já tinha ido ao médico. Ela dizia que sim, que ainda era cedo para detalhes. A Bisa Neid comia coxinha com a mão esquerda e olhava tudo com a cara de quem já tinha visto aquele filme.
Em certo momento, ela perguntou:
— E por que é que precisava de contar justamente hoje? A sala parou um pouco. A Priscila respondeu:
— Porque família é prioridade. A Neid mastigou devagar.
— Interessante. Só isso. Na despedida, o meu filho foi buscar as chaves do carro. Eu já estava no portão quando a Priscila segurou a minha mão.
— Dona Lourdes. Virei-me. Ela falava baixo, doce, só para nós as duas. — A senhora vai ser avó.
— Vou, pelo visto. A boca dela endureceu quase nada, o suficiente para eu ver. — Agora somos família de verdade. — E antes éramos de mentira?
— A senhora entendeu? — Ainda não, mas estou a esforçar-me. Ela aproximou-se mais um pouco. — Eu só espero que a senhora saiba o seu lugar nesta nova fase.
Olhei para a mão dela, ainda pousada sobre a minha, depois para o rosto. — Sei, minha filha. — Que bom. — Melhor do que imaginas.
Entrei no carro. O Murilo estava a sorrir no meio das lágrimas. — Mãe, vou ser pai. Apertei a mão dele.
— Vais precisar de respirar. Ele riu a chorar. — Nem sei como se faz isso hoje. — Aprende-se no caminho.
Na volta, ele falou do bebé, do pai, de como o Aurélio teria ficado feliz, de como a vida era estranha a juntar as duas coisas no mesmo dia. Eu respondi o necessário e deixei o meu filho falar até a voz cansar. Passámos pela estação ferroviária com o galpão das locomotivas fechado, e pensei, sem querer pensar, que aquele comboio estava ali desde 1881, a atravessar os doze quilómetros até Tiradentes, numa bitola de 76 centímetros, uma das mais estreitas do mundo ainda em funcionamento, e que tinha visto passar guerra, febre, prefeito e viúva, e continuava a ir e vir no mesmo horário. Coisa boa é assim: não tem pressa.
Mentira é que tem. Quatro dias depois do enterro, acordei com o som de um carro a parar em frente de casa. Era cedo, ainda havia aquela neblina rasteira que sobe do rio das Mortes e fica pendurada no meio da rua até o sol resolver subir. Estava de camisola quando ouvi a campainha.
Abri a porta e encontrei o Murilo com duas malas grandes, uma mochila e uma expressão que já vinha a pedir desculpa antes de a boca abrir. A Priscila estava atrás dele. — Bom dia, dona Lourdes. — Bom dia.
Olhei para as malas. — Vão viajar? O Murilo passou a mão na nuca. — Mãe, a gente queria conversar.
— Entrem. A Priscila passou primeiro. Não perguntou onde se sentava. Foi até à sala, como quem já conhecia o caminho de uma casa que em breve precisaria de aprender a mandar.
O Murilo deixou as malas perto da escada. — O nosso apartamento é muito pequeno — começou ele. — Continua do mesmo tamanho da semana passada. Ele baixou os olhos.
A Priscila sentou-se no sofá. O meu sofá, aquele que o Aurélio tinha reformado dois anos antes com uma madeira de lei que guardava desde sempre. — A questão não é só o tamanho, imagino. — O médico disse que preciso de evitar stress.
Lá no prédio tem obras, o elevador avaria, vizinhos barulhentos. E quando o bebé nascer, não há espaço para berço, cómoda, carrinho. — E vocês decidiram vir para cá. O Murilo levantou as mãos.
— Temporariamente. — Temporariamente quanto? — Até a gente se organizar. A Priscila respondeu antes dele.
— Família não põe prazo em família, dona Lourdes. Olhei para ela. — Engraçado. No enterro, puseste uma hora.
O Murilo fechou os olhos. — Mãe. A Priscila não alterou a voz. — Eu já pedi desculpa pelo jeito como falei.
— Pediste? Ela sustentou o meu olhar. — Estou a pedir agora. — Ah, então ouvi.
O Murilo soltou o ar. — A senhora está sozinha aqui. A casa é grande. Pensei que talvez fosse bom para toda a gente.
— Tu pensaste? — Eu e a Priscila pensámos. A minha nora pôs a mão na barriga. O gesto já começava a virar pontuação, vírgula, ponto final, tudo ao mesmo tempo.
— A gente não quer invadir nada. Só precisa de uma fase mais tranquila. Eu podia ter dito não. A casa era minha, não era metade, não era herança, não era favor.
Era minha desde antes do Aurélio, tinha sido dos meus pais ali no Tijuco e passara para o meu nome quando eu ainda era solteira, com escritura registada e matrícula aberta no cartório de registo de imóveis. Casámos em comunhão parcial de bens, e nesse regime o que cada um já tinha antes continua a ser só dele. A casa nunca foi do casal. Era o único chão do mundo que ninguém precisava de dividir comigo.
Mas olhei para o Murilo. O meu filho tinha enterrado o pai quatro dias antes e parecia ter envelhecido mais uma vez desde então. Se ficar perto de mim ajudasse um pouco, eu aguentaria a casa cheia por algum tempo. — Está bem — respondi.
O Murilo levantou o rosto. — A sério? — A sério. A Priscila sorriu.
— Obrigada, dona Lourdes. De verdade. — Qual quarto vão usar? O Murilo apontou para o corredor de cima.
— O meu antigo está ótimo. A Priscila virou-se para ele. — Amor, a gente conversou. Ele travou.
Eu esperei. — O quarto grande é mais arejado — disse ela. — E cabe o berço nos primeiros meses. O quarto grande era o meu.
O meu e do Aurélio. O Murilo ficou vermelho até à orelha. — Priscila, talvez seja melhor ficarmos no meu antigo mesmo. Ela sorriu para ele com uma paciência que parecia carinho e era outra coisa.
— E quando o bebé chegar, mudamos tudo de novo? Achei que a ideia era facilitar. Dá para pôr o berço lá, Murilo. Mal cabe a cama.
Virou-se para mim. — A senhora fica ótima no quarto dos fundos, ali no fim do corredor. Nem bate sol de tarde, é mais fresco. Melhor para descansar.
O quarto dos fundos era onde guardávamos malas, caixas de enfeites de Natal e roupa de cama que ninguém mais usava. Tinha uma janelinha alta que dava para o quintal e uma cama de solteiro que sobrou de quando o Murilo era menino. Olhei para o meu filho. Ele não conseguiu encarar-me.
— Mãe, é pelo bebé. Pelo bebé. A primeira vez que ouvi aquilo dentro da minha própria casa, senti um gosto de metal na boca. Gosto de moeda velha.
Gosto de quando a gente morde a bochecha por dentro sem querer. Mas respondi:
— Está bem. O Murilo levantou a cabeça. — Mãe, a senhora tem a certeza?
— Tenho. A Priscila levantou-se no mesmo instante. — Eu ajudo a organizar. — Não precisa.
— Faço questão. — Eu também. Subimos. Durante duas horas, a minha vida de casada foi empilhada em caixas de papelão.
A camisa xadrez do Aurélio, aquela que ele usava para trabalhar e que eu tinha remendado no cotovelo três vezes. Os chinelos dele. Um relógio parado em cima da cómoda, marcando 4:20 de um dia qualquer. A foto dos dois no adro da igreja de São Francisco de Assis, tirada por um fotógrafo de praça no ano em que fizemos vinte e cinco de casados.
O livro que ele andava a ler, com uma nota fiscal dobrada no meio a servir de marcador. O Murilo pegava em cada objeto como se queimasse. — Mãe, talvez isto seja rápido. — Pode ser.
— Não queria que a senhora… Ele não terminou. A Priscila apareceu na porta com uma fita métrica. — Aqui dá certinho.
— O quê? — perguntei. — Berço, cómoda e uma poltrona de amamentação. — Já mediste tudo?
— Gosto de planear. — Percebi. Ela aproximou-se da janela. — Estas cortinas são muito escuras.
Para bebé, prefiro claras. O Murilo olhou para mim. Dobrei a última camisa do meu marido e coloquei-a dentro da caixa. — Troca.
Ele arregalou os olhos. — Mãe, ela prefere. — Claro. A Priscila sorriu.
— Eu sabia que a senhora ia entender. Levei a última caixa ao colo pelo corredor de cima até à porta do fundo, aquela que fica depois da casa de banho. Cada passo naquele piso de tábuas parecia perguntar-me até onde eu iria. Pus a caixa no chão e fechei a porta.
Só então me sentei na beirada da cama estreita. Não chorei. Fiquei a olhar para a parede, para uma mancha de infiltração antiga que o Aurélio sempre dizia que ia arranjar no próximo verão. Quatro dias antes eu era esposa.
Agora já esperavam que eu aprendesse a ser viúva e avó ao mesmo tempo, a dormir no quarto dos fundos da minha própria casa, com a certidão de óbito ainda dentro de uma pasta na gaveta da cozinha. No começo da tarde, a Sônia chegou com três sacolas e uma prancheta. — Vim ajudar a futura mamãe. Entrou sem esperar convite.
— Dona Lourdes, a senhora não imagina quanta coisa uma criança precisa. — Imagino. Criei uma. — Hoje é diferente.
Criança passou a vir com manual. Ela não respondeu. Foi até à sala e começou a medir o espaço com a fita, a anotar na prancheta com uma seriedade de engenheira. — Aqui vai ficar o bebé conforto.
A cadeirinha. — O quê? Ela virou-se na hora. — Bebé conforto.
O equipamento chama-se bebé conforto. — Se ele ficar confortável, pode chamar-lhe o que quiser. O Valdir apareceu vinte minutos depois com outra fita métrica. Aquela família andava armada.
— Berço, cómoda, carrinho. O que precisar, eu trago na camioneta. Cabe tudo na caçamba. E madeira boa, hein?
Nada dessas porcarias de contraplacado. A Sônia fechou os olhos. — Essas porcarias, Valdir. — Foi o que eu disse.
A Bisa Neid entrou logo atrás, a andar devagar, com a bengala e uma sacolinha de farmácia. — Trouxe o meu remédio, porque se eu ficar muito tempo aqui, preciso de o tomar às quatro. Olhou para a sala tomada por fitas métricas. — Vão abrir uma loja?
— Estamos a organizar para o bebé — disse a Sônia. A Neid levantou os olhos para mim. — O bebé já comprou a casa? Antes de eu responder, a Priscila apareceu no alto da escada.
— Dona Lourdes, esqueci-me de dizer uma coisa. Toda a gente olhou. Ela desceu dois degraus e parou na altura certa para ser vista por todos. — O médico pediu repouso emocional.
Então, visitas, movimento, gente a entrar e a sair… Vamos evitar, não é? A Sônia sorriu. — Claro, meu amor.
O Valdir assentiu com a cabeça toda. — Grávida precisa de paz. A Priscila olhou diretamente para mim. — A casa agora precisa de ser pensada em função do bebé.
A sala ficou quieta. Naquele exato momento, a porta da cozinha abriu. A Dalva entrou com uma marmita embrulhada num pano de prato. Entrava sem bater há trinta anos, desde que comprou a casa do lado e descobriu que a minha cozinha era mais quente que a dela.
— Lourdes, fiz frango com quiabo e trouxe porque sei que não tens cabeça para… Parou no meio da sala, viu as malas, viu a Sônia com a prancheta, viu o Valdir com a fita métrica, viu a Priscila na escada. — Perdi alguma mudança de governo? Quase sorri.
A Priscila desceu até ao último degrau. — Oi, dona Dalva. Estamos a evitar visitas. O médico pediu repouso.
A Dalva virou-se para mim. — Visita? É? Não levo para o lado pessoal — disse a Priscila.
— É pelo bebé. A Dalva pôs a marmita na minha mão, ainda quente. — Claro. Virou-se e saiu.
Eu fui atrás. Na calçada, ela segurou-me o braço com uma força que não combinava com o tamanho dela. — Que diabo se passa aí dentro? — A Priscila está grávida.
A Dalva arregalou os olhos. — De quê? — Segundo ela, do Murilo. — Eu perguntei grávida de quê?
Não, de quem? Olhei para ela. A Dalva aproximou-se do meu ouvido. — Eu pari seis, Lourdes.
Seis. Entendo de escolher plateia e barriga, de recusar café num dia e tomar dois no outro. Isso aí não está grávida. É de plano.
Pela primeira vez desde o enterro, sorri de verdade. — Percebeste em meia hora. — Percebi em cinco minutos e ainda gastei quatro por educação. Segurei o riso.
— Vai para casa, Dalva. — Vais-me contar. — Vou hoje. — Talvez.
— Lourdes. — Vou. Ela apontou-me o dedo. — Se essa menina te expulsar desta casa, eu volto com os meus seis filhos e mais o marido da caçula, que é polícia.
— Não vai precisar. — Como sabes? Olhei para a janela do meu antigo quarto. A Priscila estava lá a mexer na cortina, a medir a barra com os dedos.
— Porque ainda não fui expulsa. E o que chamas a isto? — Convite para ficar perto. A Dalva franziu a testa.
— Às vezes dás-me medo. — Ótimo. Voltei para dentro e deitei-me no quarto dos fundos, cercada por caixas da minha própria vida. Do outro lado da parede, ouvi o Murilo a rir baixinho com a Priscila.
O meu filho acreditava que estava a proteger o futuro. A Dalva tinha posto em voz alta uma dúvida que eu ainda não sabia onde guardar. Talvez estivesse a ver demasiado. Talvez eu estivesse a ver de menos.
Naquela noite, preferi não decidir nada. A nova rotina instalou-se como mofo em parede de casa velha. Primeiro num canto, depois em tudo. A Priscila não precisava de levantar a voz, descobri isso rápido.
Tinha uma expressão capaz de transformar um pedido em regra e uma regra em culpa, tudo sem mudar o tom. Na segunda-feira, o Murilo sentou-se comigo na copa para almoçar. Eu tinha feito bife acebolado com angu e couve, que era o prato que ele pedia quando ficava doente na infância. Mal pôs arroz no prato, a Priscila apareceu na porta.
— Amor, vais comer aqui? — Vou. Há muito tempo que não almoço com a minha mãe. Ela tocou no nariz de leve.
— O cheiro de fritura está a dar-me ânsia. O Murilo largou o garfo. — Eu não queria… — Não é frescura.
É que lá em cima passa menos cheiro. Ele olhou para mim. — Mãe, importa-se? A senhora não liga?
— Como sozinha desde que o teu pai morreu. Não vai ser hoje que desaprendo. Ele fez uma expressão de dor física. A Priscila entrou no meio.
— Dona Lourdes, não precisa de dramatizar. — Não dramatizei — informei. O Murilo pegou no prato e subiu. Fiquei na copa com o angu a esfriar na travessa e o relógio da parede a fazer aquele barulho que só existe quando não há mais ninguém na casa.
Na terça, ele disse que me levaria ao cemitério no domingo. A Priscila estava no sofá. — Domingo? — É.
A mãe quer levar umas flores ao pai. Ela virou-se para ele. — Domingo é o único dia em que te tenho inteiro. — A gente volta rápido.
O teu pai não vai sentir a tua falta. O Murilo ficou quieto. Ela completou com uma doçura que me deu vontade de abrir todas as janelas da casa. — Morto não precisa de visita, Murilo.
Grávida precisa. Olhei para ela. A Priscila percebeu. — Sei que parece frio, dona Lourdes, mas estou a tentar ensinar o Murilo a viver o presente.
— O teu método é eficiente. — Faço o que posso. No domingo, fui ao Quicumbi com a Dalva. Levámos cravos e uma vela.
No caminho, ela não parou de falar. — Morto não precisa de visita. Eu ouvi bem? — Ouviste.
— Se fosse comigo, tinha enterrado outra pessoa. — Por isso é comigo. — Vais continuar a deixar? — Vou continuar a olhar.
— Olhar para quê? — O que acontece quando o tempo passa. A Dalva franziu a testa. — Isso foi resposta?
— Foi a que tenho. — Andas a conviver demais com o Valdir. Ri-me. Quando voltámos, a foto do Aurélio já não estava na estante da sala.
Parei diante do espaço vazio. Dava para ver o retângulo mais escuro na madeira, onde o sol não tinha batido durante anos. A Priscila veio do corredor. — Ah, dona Lourdes.
Guardei a foto. — Onde? — Na gaveta do aparador. — Porquê?
— Coisa de morte perto de grávida não é bom. Energia pesada. Fui até à gaveta, tirei a foto e segurei-a nas mãos. O Aurélio sorria daquele jeito discreto, de lado, como se até a fotografia fosse coisa que não precisava de fazer barulho.
— E a tua mãe pode vir? A Priscila piscou. — Como assim? — Ela veio três vezes esta semana.
— A minha mãe não é visita. Está a ajudar-me. — Entendi. Peguei na foto e levei-a para o quarto dos fundos.
Pus em cima da cómoda pequena, virada para a cama, e naquela noite dormi a olhar para ela. Na terça seguinte, a Sônia apareceu com um jogo de cama novo. Entrou no meu quarto sem pedir licença. — Este vai combinar com o quartinho da vovó Lourdes.
Virei-me devagar. — Como chamaste? — Quartinho da vovó Lourdes. Achei carinhoso.
— Parece nome de depósito de asilo. Ela deu uma risadinha. — A senhora leva tudo para um lado muito sensível. — O meu marido morreu há duas semanas.
Tenho licença. A Sônia mudou de assunto na hora. O Valdir, por sua vez, tomou a vaga coberta da garagem. — É só por uns dias — explicou.
— A Priscila não pode andar muito do portão até à porta. — Ela nem sequer conduz a tua camioneta. — Mas quando eu venho buscá-la, já fica perto. — E o meu carro?
— O seu fica ali fora. É pequeno. Olhei para a camioneta, a brilhar debaixo da cobertura que o Aurélio tinha levantado sozinho num sábado, com madeira que sobrou de uma obra. — A prestação está em dia?
O Valdir quase engoliu a língua. — Claro. — Pergunto por curiosidade. Carro deste nível não é para qualquer um.
Nem prestação, pelo jeito. Ele ficou a olhar para mim sem saber se aquilo tinha sido ofensa. A Sônia apareceu e corrigiu. — Não se fala em prestação com esse tom.
Parece carnê de loja. — É financiamento — disse o Valdir. — Ah, então muda tudo. Na quinta-feira, jantámos todos juntos.
O Murilo parecia cansado de um jeito que não era só sono. A Priscila estava especialmente serena. A Bisa Neid veio porque, segundo ela, se há comida de graça, ainda sou da família. Fiz frango com quiabo, a receita da Dalva, e queijo de tábua para acompanhar, daqueles curados que compramos na feira de sábado.
A Neid provou e fechou os olhos. — Este é da região, não é? Do Campo das Vertentes. Comprei ao rapaz que traz de Coronel Xavier Chaves.
— Tem gosto de coisa que não se aprende em livro. — Não se aprende mesmo. Há três séculos que fazem assim, com leite cru. Por isso o modo de fazer virou patrimônio cultural do Brasil, registado pelo Iphan.
A nossa região entrou na lista quando ampliaram o reconhecimento. A Sônia levantou a sobrancelha, meio incomodada por ver alguém a saber alguma coisa na mesa dela sem ser ela. — E há gente que só sabe brindar com espumante de rótulo virado. No meio do arroz, a Neid levantou o garfo.
— Em que mês nasce essa criança? A Priscila bebeu água antes de responder. — Abril. A Neid começou a contar nos dedos, devagar.
— Um, dois, três… O Valdir parou de mastigar. A Sônia endireitou a coluna. — Dona Neid, não precisa de fazer contas à mesa.
— Preciso sim. Conta em pé escapa. Continuou. — Abril…
Então, quando o teu sogro morreu, tu já estavas de… A Priscila cortou. — Dois meses. Vó, quer mais arroz?
A Neid olhou para a barriga lisa por cima dos óculos. — No meu tempo, dois meses já apontava. — Cada corpo é um corpo. — Esse aí só apontou apetite de dinheiro.
O Valdir engasgou de verdade e teve de beber água. O Murilo quase riu e segurou. A Sônia fez cara de ofendida profissional. — Dona Neid, o correto seria apetite por dinheiro.
A Neid virou-se para ela. — Corrige a barriga, Sônia. O meu português não precisa. Baixei a cabeça para esconder o sorriso.
A Priscila não perdeu a linha, nem um músculo do rosto se mexeu. Mas eu vi a mão dela apertar o guardanapo até o pano ficar branco entre os dedos. Depois do jantar, fui para o quarto dos fundos. A parede era fina, já tinha percebido isso na primeira noite.
A casa era antiga, de tijolo maciço no corpo, mas o fim do corredor de cima fora fechado depois, com uma divisória de madeira. Era exatamente essa divisória que separava a minha cama da cabeceira do quarto grande. Ouvi a voz da Priscila do outro lado, baixa, ao telefone. — Eu sei que há prazo, mãe.
Fiquei imóvel. Do outro lado, a Sônia falava tão baixo que eu só ouvia o chiado. A Priscila respondeu:
— Eu sei fazer contas. Silêncio.
— Não, ainda não. Mais silêncio. Então veio a frase que me fez levantar da cama. — Ele mal me toca desde o enterro.
A voz da Sônia virou um murmúrio mais longo. A Priscila respondeu com uma irritação contida que eu nunca tinha ouvido nela. — Eu já disse que vou resolver. Ouvi passos.
Afastei-me da divisória na ponta dos pés e sentei na cama. Segundos depois, a porta do quarto grande abriu. A Priscila foi à casa de banho. A descarga, a torneira, a porta de novo.
Fiquei sentada no escuro por um tempo que não sei medir. Foi ali que percebi que a mentira tinha sócia, e que a sociedade era de família. No dia seguinte, convidei a Sônia para um chá. Ela aceitou tão rápido que tive a certeza de que se considerava vitoriosa.
— Eu sabia que a senhora ia perceber que precisamos de nos aproximar — disse, a entrar com uma garrafa de espumante debaixo do braço. — Às três da tarde, é só para brindar à nova fase. — Brindas bastante. — A vida precisa de celebração.
Sentámo-nos na varanda dos fundos, de onde se via o quintal, a oficina fechada do Aurélio e, por cima do muro, um pedaço da serra do Lenheiro com aquela pedra clara a apanhar sol. Fiz café. Ela pediu chá. Fiz chá.
Ela disse que estava a evitar açúcar. Pus biscoitos de polvilho na mesa. A Sônia comeu quatro. Eu não tinha nenhuma pergunta direta para fazer.
Pergunta direta fecha, gente vaidosa. E a Sônia gostava de falar mais do que gostava de pensar, então deixei. — A Priscila sempre foi muito determinada — começou ela. — É, desde pequena, imagino.
— Ela nunca aceitou vida mediana. — O que é vida mediana? A Sônia ajeitou a manga da blusa. — Viver sem planeamento, depender de salário, não construir estrutura.
— O Murilo depende de salário. Mas tem patrimônio familiar. Ali estava a primeira pedrinha a aparecer na água baixa. Mexi o chá devagar.
— Patrimônio do pai dele. — Agora da família, não é? — Qual família? Ela riu.
— Ai, dona Lourdes, a senhora é engraçada. — Às vezes, sem querer. A Sônia bebeu um gole. — Depois que o Aurélio se foi, muita coisa vai precisar de ser reorganizada.
Vai haver inventário, oficina, casa, essas coisas. — Percebes disso? — Não juridicamente. Mas a gente conhece a vida.
— A vida tem cartório? Ela ignorou. — O Murilo é filho único. — É.
Então fica tudo mais simples. — Fica. A Sônia percebeu tarde demais que estava a andar em terreno que não conhecia. Endireitou o corpo.
— Quero dizer emocionalmente. Sem disputa entre irmãos. — Claro. Servi mais chá.
O que ela não sabia, e o que eu já tinha ido perguntar a uma advogada na semana anterior, numa sala pequena perto do fórum, era que a conta não fechava do jeito que ela imaginava. A doutora Marilene explicara-me com paciência de professora. Casados em comunhão parcial, o que entra no inventário é o que foi construído durante o casamento. A casa era minha de antes, bem particular, e não entrava.
Da oficina e do que veio depois, metade já era minha por meação, e a outra metade é que virava herança. E mesmo essa parte não era do meu filho sozinho, porque o cônjuge sobrevivente é herdeiro necessário. Ninguém apaga uma viúva de um inventário no papel. Só na conversa de sala.
— E a tua loja? — perguntei. — A Priscila disse uma vez que tinhas uma loja de roupa. O rosto dela mudou um pouco.
— Encerrei. — Aposentaste-te? — Não. Mudança de mercado.
— Ah, o comércio está muito difícil, imagino. O Valdir também reduziu algumas coisas. O sítio. Ela levantou a vista.
— A Priscila comentou que venderam um sítio. A Sônia demorou um segundo. — Vendemos. Uma voz veio da porta da cozinha.
— Mentira. A Bisa Neid estava ali. Ninguém tinha ouvido chegar, o que é uma proeza para quem anda de bengala. A Sônia fechou os olhos.
— Dona Neid, a senhora não pode entrar assim. — Posso? A casa não é tua. Aqui é da dona Lourdes.
— Estou a falar da tua. A Neid sentou sem ser convidada, puxou a cadeira com o pé e apoiou a bengala na mesa. — Que sítio foi esse que vocês venderam? A Sônia ficou vermelha.
— A senhora sabe? — Sei. A minha casa. Olhei para a Sônia.
A Neid pegou num biscoito. — Eles chamavam-lhe sítio porque tinha um pé de jabuticaba no fundo e três galinhas. Venderam a casa onde eu morava, para os lados de Ritápolis. E agora dizem por aí que eu moro com eles porque fiquei velha.
— Dona Neid, já falámos sobre isso. — Vocês falaram. Eu ouvi. A Sônia virou-se para mim.
— Foi uma decisão familiar. — Claro. — O imóvel estava pesado de manter. A Neid mastigou.
— Pesado era o financiamento da camioneta. Baixei os olhos para a chávena. A Sônia apertou os lábios. — A camioneta é instrumento de trabalho do Valdir.
— Ele trabalha em quê? — perguntou a Neid. Silêncio. Tive de tossir para esconder a risada.
A Sônia levantou-se. — Dona Neid, vamos embora. — Acabei de chegar. — A senhora não foi convidada.
— Nem a dívida. E moro com vocês. Toquei no braço da Neid. — Fica.
Há café. Ela sorriu, e o sorriso dela tinha um dente de ouro do lado esquerdo que brilhou na luz da varanda. A Sônia sentou-se de novo, derrotada o suficiente para ficar imprudente. Foi então que disse a frase que terminou de abrir o desenho.
— A Priscila sempre foi a nossa esperança. — Esperança de quê? — De fazer uma vida boa. — Ela trabalha.
— Não estou a falar de emprego. — Ah. A Sônia apoiou a chávena. — Sempre disse a ela: mulher esperta não casa com homem, casa com estrutura.
A Neid soltou um ruído de desprezo pelo nariz. A Sônia virou-se para mim com ar professoral, como quem entrega uma joia de família. — Estrutura. Essa é a palavra.
Aprenda, dona Lourdes. Sorri. — Estou a aprender muito contigo. Quando ela foi embora, a Neid ficou.
Esperámos o portão bater. Então ela disse:
— Tu sabes que estão falidos, não sabes? — Agora sei. — Falidos com pose é pior.
— E a Priscila sabe? — Foi ela que pagou duas prestações da camioneta no mês passado. — Com o dinheiro dela? — Com o do teu filho, pelo que ouvi da cozinha.
Olhei para a rua. Um menino passava a empurrar uma bicicleta ladeira acima. A Neid continuou. — A Sônia criou aquela menina como um projeto.
Desde pequena, tudo é posição, aparência, vantagem. Menina de doze anos não devia saber a palavra estrutura. — E a senhora nunca disse nada? — Disse.
Eles corrigiram o meu português. Aí parei de gastar saliva. Guardo para comer. Já deitada, encaixei as peças uma por uma, naquela cama estreita, a olhar para o teto.
O casamento do Murilo com a Priscila vinha mal antes da morte do Aurélio. Eu sabia que discutiam, não sabia a extensão. O meu filho tinha aparecido sozinho para almoçar duas vezes nas semanas anteriores e, quando perguntei pela mulher, disse apenas que estavam numa fase. Depois veio a morte.
Filho único, pai morto, viúva dentro de uma casa grande e quitada, inventário pela frente, a família da nora a afundar-se em dívidas com pose de quem não deve nada, e um casamento a balançar na corda. Uma nora sem filho ainda podia ser deixada. Uma grávida virava compromisso, culpa, futuro e patrimônio numa palavra só. A barriga era o inventário antecipado do meu marido.
Dois dias depois, subi para buscar um álbum de fotografias que tinha ficado no armário do quarto grande. A Priscila encontrou-me com a porta aberta. — Dona Lourdes. Virei-me.
— Vim buscar uma coisa. — A gente combinou. — O quê? — Este quarto agora é do bebé.
— O bebé está a usar o armário? Ela respirou fundo, daquele jeito de quem conta até três por dentro. O Murilo apareceu atrás dela. — O que foi?
A Priscila virou-se para ele. — Nada. A tua mãe entrou aqui sem avisar. O meu filho olhou para mim.
— Mãe, precisava de alguma coisa? Apontei para o álbum que já estava na minha mão. — Isso. Eu pegava para a senhora.
A Priscila cruzou os braços. — Murilo, a tua mãe precisa de entender que existe uma hierarquia nova nesta casa. — Hierarquia na minha casa? Durante alguns segundos, ninguém falou.
Dava para ouvir a torneira da casa de banho a pingar, aquela em que o Aurélio ia trocar a borracha. O Murilo murchou. — Mãe, deixa. Depois eu pego o álbum.
Segurei o álbum contra o peito. — Já peguei. Passei pelos dois. Desci a escada devagar, um degrau de cada vez, a sentir o corrimão que o meu marido tinha lixado e envernizado com a própria mão.
Há horas em que segurar a língua arde mais do que um tapa. Desci a mastigar aquela palavra. Hierarquia. Desci porque subir, eu ia subir depois.
Com testemunha, com papel e, se fosse preciso, começando pelo que eu tinha visto cair no meu tapete doze dias antes de enterrar o meu marido, e que eu não podia provar a pessoa nenhuma. Naquela semana, a mentira completou o que a minha nora dizia ser quase o terceiro mês. A barriga continuava tão lisa quanto a bancada de trabalho do Aurélio. E, pela primeira vez em toda aquela história, vi a minha nora olhar para o próprio corpo com medo.
Na quarta-feira, a Priscila desceu a escada a abanar uma fotografia. — Chegou. O Murilo levantou do sofá num pulo. — O quê?
— O nosso bebé. Ele correu. Eu estava na copa a passar café, mas ouvi o choro dele antes de ver a imagem. A Priscila entrou na cozinha com o meu filho agarrado à cintura dela.
— Dona Lourdes, olhe. Mostrou uma fotografia de ultrassom, cinzenta, pequena, com letras brancas no alto e uma faixa mais escura em baixo. Eu não sou médica. Para mim, ultrassom sempre pareceu previsão de chuva até alguém apontar onde está o bebé.
— Este é o bebé? — perguntei. — É. Está tudo bem?
— Perfeito. — Que bom. O Murilo passou o dedo perto da imagem, sem encostar, como quem toca vidro de museu. A Priscila puxou-a.
— Cuidado, amor. Não amassa. — Desculpa. Quero guardar.
A Sônia chegou meia hora depois com uma moldura. Não sei como aquela mulher conseguia estar sempre pronta para tudo o que exigisse moldura. — Primeiro retrato do meu neto. O Valdir veio atrás.
— Faz uma cópia que eu ponho no vidro da camioneta. A Bisa Neid ergueu os olhos do sofá. — Para quê? A criança vai dirigir?
— É uma lembrança, mãe. — Lembrança é o carnê. Esse levas a vida inteira. O Valdir ignorou.
Eu perguntei:
— Em que clínica foi? A Priscila respondeu rápido. — Em Barbacena. — Barbacena?
Aqui toda a gente se conhece. — Queria privacidade. — Foste sozinha? — A minha mãe foi comigo.
A Sônia assentiu com a cabeça inteira. — Clínica excelente. — Qual? As duas olharam-se por meio segundo.
Meio segundo é muito tempo quando alguém devia responder na hora. A Priscila disse um nome. — São Gabriel. Guardei.
— E o médico? — Dona Lourdes, não sabia que tinha de trazer uma ficha cadastral. — Não tem. Pergunto porque talvez o conheça.
O teu sogro fez móveis para muito médico desta região. — Não conhece. — Então pronto. Naquela tarde, fui a casa da Dalva.
Ela abriu a porta antes de eu bater, o que já era mau sinal para os meus planos de discrição. — O que aconteceu? — Como sabes que aconteceu alguma coisa? — Só vens às três da tarde sem avisar quando há desgraça ou fofoca.
— É o ultrassom da grávida de vento. Barbacena. Clínica São Gabriel. A Dalva estreitou os olhos.
— A minha sobrinha trabalha numa clínica lá em Barbacena. A São Gabriel? Não sei, ela já mudou três vezes de emprego. Espera.
Pegou no telemóvel, discou, depois desligou. — Não atende. Ligamos mais tarde. Vamos ligar do telefone da padaria.
Olhei para ela. — Dalva, estás a investigar uma gravidez, não um cartel. — Telemóvel deixa rasto. Viste aquele programa na televisão sobre escutas há vinte anos?
Então. Acabei por rir. E rir naquela semana era um acontecimento. Sentámo-nos à mesa dela, que tinha uma toalha de plástico com desenhos de fruta e um açucareiro que eu conhecia desde os anos noventa.
Duas horas depois, a sobrinha retornou. A Dalva pôs no altifalante. — Rosana, conheces uma clínica São Gabriel aí? — Qual São Gabriel de ultrassom?
Tia, há consultórios com nomes parecidos, mas clínica grande com esse nome não conheço, não. Peguei num papel e numa caneta. — Rosana, aqui é a Lourdes, vizinha da tua tia. Consegues descobrir se existe atendimento de uma Priscila…
Parei a meio da frase, mas já era tarde. — Não, dona Lourdes. A voz da moça mudou de tom, ficou firme. — Prontuário é sigiloso.
Não posso olhar para a ficha de paciente de ninguém, nem por curiosidade, nem por parentesco. Isso é a primeira coisa que nos ensinam. Quem tem direito à informação é a própria paciente, e é ela que pede a cópia. Se eu fizesse isso, perdia o registo.
E com razão. Se vocês têm dúvidas, peçam o comprovativo a ela. Aquilo pôs-me no lugar certo com um abanão. Eu estava tão ocupada a provar a mentira da minha nora que quase pedi a uma menina honesta que cometesse uma por mim.
— Tens razão — disse. — Esquece o que perguntei. E obrigada. Desligámos.
A Dalva bateu com a mão na mesa. — E agora? — Agora pergunto o que ela própria está disposta a mostrar. No dia seguinte, o Murilo comentou que precisava dos dados do exame para lançar no plano de saúde.
A Priscila respondeu:
— Foi particular. Mas passa-me a fatura, talvez dê reembolso. — A minha mãe pagou — disse a Sônia, que estava na sala a fingir que mexia no telemóvel. — Paguei.
— Então dá-me a fatura — disse o Murilo. — Devolvo à senhora se o plano reembolsar. — Deitei fora. O Murilo franziu a testa.
— Deitaste fora? Não sabia que precisava. A Priscila entrou. — Amor, por favor.
Acabámos de ver o nosso filho e tu estás a falar de fatura? Ele recuou. — Não, claro. Só que eu tenho sempre uma burocracia para estragar uma coisa bonita.
Ela foi para o quarto. A Sônia seguiu atrás como uma sombra. O Murilo ficou parado no meio da sala com o telemóvel na mão. Eu não disse nada.
Fui lavar a loiça e deixei a torneira aberta mais tempo do que precisava, só para ele ter um barulho de fundo enquanto pensava. Na hora do almoço, ele perguntou:
— Mãe, quando a senhora estava grávida de mim, com quanto tempo começou a sentir enjoos? Olhei para ele. — Porquê?
— Nada. Curiosidade. — Quase não tive enjoos. O teu pai dizia que já nasceste educado.
Ele mexeu no arroz sem o levar à boca. — Cada mulher é diferente. A Priscila diz isso, e nisso ela está certa. Ele encarou-me, à espera de outra coisa.
— Mãe, acha que está tudo bem? — Com quem? — Com ela. — Dormes com ela.
Tu é que deves saber. — Já não sei mais nada. Foi a primeira frase honesta dele sobre o casamento em semanas. Apoiei o garfo no prato.
— Então começa por observar o que sabes, não o que queres acreditar. O Murilo ficou em silêncio o resto do almoço. Naquela tarde, a Dalva veio escondida pela porta da cozinha, como quem atravessa uma fronteira. Trouxe pamonha e fofoca.
A fofoca veio sem milho. Sentou-se. — A minha sobrinha perguntou a duas amigas se conheciam essa tal clínica. Ninguém conhece com esse nome exato.
Mas ela avisou: sem nome de médico, sem endereço, sem recibo, não dá para afirmar que não existe. Barbacena é grande. — Melhor assim. Não quero prova inventada para combater prova inventada.
A Dalva suspirou. — És muito certinha para a vingança. Por isso é que vai funcionar. No domingo, o Valdir levantou o copo no almoço.
— Um brinde ao meu neto, que já tem até o primeiro retrato no vidro da camioneta do avô. A Sônia corrigiu. — Ecografia, Valdir. É um retrato por dentro.
A Bisa Neid nem levantou os olhos do prato. — Retrato de quê? Nessa foto aí não há nada. Parece o sítio que vocês disseram que venderam.
O Valdir começou a tossir. A Sônia largou o garfo. — Dona Neid… A Neid continuou a comer.
— Só vejo manchas. A Priscila falou calma. — A senhora não entende de ultrassom. — Nem vocês entendem de dívidas, e continuam a fazer.
O Murilo soltou uma risada involuntária. A Priscila olhou para ele. A risada morreu antes de terminar. Já era quase meia-noite quando o meu filho bateu à porta do quarto dos fundos.
Foi a primeira vez que entrou ali desde que eu me tinha mudado. Olhou as caixas empilhadas até quase ao teto, a foto do pai na cómoda pequena, a minha roupa pendurada num cabide improvisado atrás da porta, porque no guarda-roupa do quarto grande agora havia roupa de outra mulher. — A senhora está bem aqui? — Estou a dormir.
— Não foi o que perguntei. — Então pergunta direito. Ele sentou na beirada da cama, que rangeu. — Fui um idiota.
Olhei para ele. — Em que assunto? Ele quase sorriu. — Em trazer a Priscila para cá.
— Trouxeste a tua esposa, convencido de que estava grávida e precisava de ajuda. — A senhora fala de um jeito estranho. Fiquei calada. O Murilo levantou os olhos.
— Mãe, o quê? A senhora sabe alguma coisa? Eu podia ter contado. O teste digital daquele domingo, a ligação a atravessar a parede, a Sônia a falar de estrutura na minha varanda com a boca cheia de biscoito de polvilho.
Mas um filho que acorda com a mão dos outros pode voltar a dormir assim que a mulher apertar a trela. Eu já tinha visto aquilo em casa de vizinha, em novela e na vida. Precisava de que ele visse com os próprios olhos. — Sei que o teu pai morreu — respondi.
— Sei que estás a sofrer, e sei que gente a sofrer acredita depressa em qualquer coisa que dê esperança. Ele baixou a cabeça. — Isso não responde nada. O Murilo ficou alguns segundos parado, a olhar para a foto do pai.
Na porta, perguntou:
— Com quantas semanas é que uma mulher começa a sentir enjoos? — Não há regra. — E se só sente quando há gente a olhar? Não respondi.
Ele saiu. Ouvi os passos pelo corredor e a porta do quarto grande a fechar devagar, com aquele cuidado de quem não quer acordar ninguém, e já está bem acordado. Uma mãe conhece o barulho de um homem a começar a desconfiar. É o mesmo barulho de uma porta a destrancar.
A Priscila percebeu a mudança do Murilo antes de mim. Golpista boa reconhece a dúvida do mesmo jeito que um gato reconhece o barulho de comida. Na manhã seguinte, estava especialmente carinhosa. — Amor, andas distante.
Ouvi da cozinha. O Murilo respondeu qualquer coisa baixa. Ela continuou. — O bebé sente, sabias?
Silêncio. — Não te estou a cobrar. Só estou a dizer que preciso de ti perto. Depois veio a jogada que quase me fez admirar a frieza dela.
— Queres saber? No próximo mês, vais comigo ao médico. O Murilo respondeu na hora. — Vou.
Ao daqui da cidade mesmo. Agora que passou a fase mais delicada, não quero estar a viajar. — A sério? — Claro.
Achas que quero viver isto sozinha? Quando ele entrou na cozinha, parecia aliviado de um jeito quase infantil. — Ela marcou uma consulta comigo. — Que bom.
— A senhora ouviu? — A casa é grande, mas a voz atravessa a porta. — Então pronto. — Pronto o quê?
— Nada. Estava a pensar. Ele abriu o frigorífico só para ter o que fazer com as mãos. — Uma mulher que está a mentir não chama o marido para a consulta, pois não?
Fechei o pote que estava a guardar. — Golpista boa não foge da mesa, meu filho. Às vezes, marca a mesa para depois do golpe. O Murilo virou-se para mim.
— Então a senhora acha que ela está a mentir? — Acho que fizeste uma pergunta e respondeste sozinho antes de eu abrir a boca. Ele fechou a porta do frigorífico com mais força do que precisava. — A senhora não ajuda.
— Estou a tentar atrapalhar. Naquela noite, veio a segunda frente. O jantar. A Priscila serviu o meu prato primeiro.
Quando ela fazia questão de parecer cuidadosa, era porque vinha a faca com cabo de veludo. — Dona Lourdes, eu e o Murilo conversámos. O meu filho ergueu os olhos imediatamente. A Priscila tocou-lhe no braço.
— A gente termina de conversar depois, amor. Olhei para os dois. — Pode falar. Ela sorriu.
— Com o bebé a chegar, a senhora não acha que seria mais feliz num lugarzinho só seu? Mastiguei devagar. Contei três mastigadas antes de responder, um truque que a minha mãe me ensinou e que levei a vida inteira sem usar bem. — Já tenho um lugar só meu.
A Priscila inclinou a cabeça. — Digo mais pequeno, mais prático. Há uns apartamentos ótimos ali perto da Avenida Tancredo Neves. Elevador, portaria, tudo organizado.
O Murilo largou o garfo. — Priscila, a gente não decidiu nada disso. Ela olhou para ele como quem olha para uma criança a interromper um adulto. — Eu disse que era uma ideia.
Depois voltou-se para mim. — A senhora teria a sua independência. Olhei em volta para as paredes que o meu pai tinha levantado e o meu marido tinha pintado três vezes. — E aqui tenho o quê?
— Não foi isso que quis dizer. — Então diz o que quiseste dizer. A voz dela continuou macia. — A gente cuidaria de tudo.
A senhora não precisava de se preocupar com nada. Nem com esta casa. Nem com esta casa. A cobra acabara de pedir a escritura com voz de enfermeira.
O Murilo ficou vermelho. — Amor, chega. A Priscila levou a mão à barriga. — Estou a tentar pensar em toda a gente.
— Não falaste disso comigo. — Falei que a tua mãe não podia ficar sozinha. Isso é diferente de a tirar daqui. — Ninguém falou em tirar.
Acabaste de oferecer um apartamento. Ela respirou, apertou os olhos e tocou na testa com dois dedos. — Murilo, por favor. Não posso ter stress.
A trela. O meu filho fechou a boca. Quase ouvi o clique. — Vou pensar — disse eu.
Os dois olharam para mim. A Priscila sorriu primeiro. — Claro. Sem pressão.
Sem pressão. O que ela não sabia é que, três dias antes, eu tinha voltado à sala da doutora Marilene com uma pergunta só, e a resposta tinha-me acalmado mais do que qualquer remédio. Ela explicou que existe uma coisa chamada direito real de habitação. Está no Código Civil, no artigo 1831.
Ao cônjuge sobrevivente, qualquer que seja o regime de bens, fica assegurado o direito de continuar a morar no imóvel que servia de residência da família, desde que seja o único daquela natureza a inventariar. Não depende de autorização de filho, de nora, nem de acordo em sala de jantar. — E se a casa fosse só do meu marido? — perguntara eu.
— Ainda assim, a senhora não sai. É o mínimo que a lei garante para uma viúva não ficar na rua. — E sendo minha de antes? A advogada tirou os óculos.
— Aí, dona Lourdes, a conversa nem começa. Fui dormir cedo, mas não dormi. Queria que o Murilo se deitasse ao lado dela com aquela cena na cabeça. A mulher dele, grávida de papel, a oferecer a rua à dona da casa numa mesa de jantar com a boca cheia de futuro.
Há venenos que só fazem efeito quando a consciência começa a metabolizar. No dia seguinte, fui a casa da Dalva. Ela ouviu tudo de boca aberta. — Ela ofereceu-te um apartamento?
Na tua casa? — Na minha casa. — E o Murilo? — Descobriu ao mesmo tempo que eu.
A Dalva levantou da cadeira. — Eu vou lá. — Senta. — Não vou, Lourdes.
Vou entrar pela cozinha e explicar a diferença entre grávida e proprietária. — Senta. Ela sentou, a bufar. — Estás à espera do quê, Lourdes?
De a criança nascer? Que essa não nasce nem com promessa. Servi café. — Falta uma coisa.
— O quê? — Um lugar onde ela não possa inverter a história. A Dalva olhou para mim. — Tu já tens o teste que viste, a data, as contas que não fecham, a história do exame, a mãe dela quase a confessar a intenção na tua varanda.
— Tenho suspeitas boas, algumas contradições e um filho emocionalmente destruído. Se eu estourar isto dentro de casa, a Priscila chora, põe a mão na barriga e diz que a sogra, enlouquecida pelo luto, quer separar o casal. A Dalva pensou. — E o Murilo?
— Talvez acredite nela outra vez. — Talvez. — Eu não quero talvez. Ela bebeu o café e estudou-me por cima da chávena.
— O que é que tu queres? Sorri. — Ela quer tanto essa gravidez. — Quer.
— Então vamos dar uma festa a essa gravidez. A Dalva parou com a chávena no ar. — Festa? — Chá revelação.
O rosto dela abriu-se devagar, como uma janela de manhã. — Com gente. Muita. — És doente, comadre.
A Dalva bateu com a mão na mesa. — Adoro-te. — Não exageres. — E como é que a vais fazer aceitar publicamente?
E se ela inventar que está a passar mal? — Aí, a própria fuga vira pergunta. A Dalva começou a rir com a mão na barriga. — Quero fazer os salgadinhos.
— Queres assistir também? — Nada de espalhar antes. — Sei guardar segredo. Olhei para ela.
— Está bem. — Sei guardar segredo quando ele não é muito bom. Levantei-me. Na porta, a Dalva perguntou:
— E se ela tiver uma carta que tu não viste?
Parei. — A gente lida. Disse aquilo com segurança. No dia seguinte, descobri que a Priscila tinha uma.
E durante três dias inteiros, achei que tinha perdido. A Priscila apareceu na cozinha com o rosto branco e uma pequena mancha de sangue num lenço de papel. — Murilo… O meu filho levantou-se tão rápido que derrubou a cadeira.
— O que foi? — Estou a sangrar. O mundo dele parou. O meu também, mas por outro motivo.
— Vamos para o hospital — disse ele. — Não precisa. A minha mãe já falou com o médico. — Como não precisa?
Ele vai atender-te no consultório. Eu vou contigo. Ela segurou o braço dele com as duas mãos. — Amor, preciso que fiques calmo.
Quanto mais nervoso estás, mais nervosa eu fico. O Murilo engoliu o ar devagar, a tentar obedecer, e aquilo doeu de ver. Aproximei-me. — Queres que eu vá?
A Priscila virou o rosto para mim. — Não. — Então eu fico. A Sônia chegou quinze minutos depois e levou a filha.
O Murilo andou de um lado para o outro na sala durante quase duas horas. Do sofá à janela, da janela à porta. Eu não disse nada. Fiquei sentada com um pano de prato no colo, a dobrar e a desdobrar.
Quando a Priscila voltou, vinha com uma pasta na mão e uma palavra nova na boca. — Gravidez de risco. O Murilo quase caiu sentado. — O quê?
Ela começou a chorar, dessa vez com lágrimas verdadeiras, daquelas que descem sozinhas. — O médico disse que preciso de repouso, evitar qualquer stress. — E o bebé? — Está bem.
Por enquanto. Por enquanto. Duas palavras capazes de transformar qualquer pergunta em crueldade. O Murilo ajoelhou-se diante dela ali mesmo, no meio da sala.
— Eu faço tudo. Tudo. A Priscila passou a mão no cabelo dele. — Só não quero perder o nosso filho.
Olhou para mim. Foi rápido, um piscar. Mas eu vi. No jantar, ensaiou a apólice.
— Eu sei que a dona Lourdes não me aceita. O Murilo levantou a cabeça. — Priscila… — Não estou a brigar.
Só estou a ser sincera. Sinto o clima, Murilo. Tocou na barriga. — Se acontecer alguma coisa com o bebé, não sei se aguento.
Fiquei imóvel, com o garfo no ar. A mentira tinha acabado de comprar um seguro, e eu era a beneficiária, ao contrário. Se a gravidez terminasse, bastava à Priscila dizer que o stress dentro daquela casa tinha provocado. A sogra hostil, a viúva ciumenta, a mãe que não aceitava perder o filho para a esposa.
Perfeito. Depois do jantar, a Dalva veio pela porta dos fundos. — E a festa? — Talvez tenha morrido.
— Como assim? Contei. Ela fez o sinal da cruz duas vezes. — Essa menina é má de serviço.
— É boa de serviço. Esse é o problema. — Achas que ela vai inventar que perdeu? — Acho que está a preparar.
E depois põe nas tuas costas. — Exatamente. A Dalva ficou séria. — Então conta ao Murilo agora.
— Ainda não. Se eu conto agora, ela diz que provoquei o sangramento a desconfiar dela à frente do marido. A Dalva fechou a boca. Eu continuei.
— Preciso de saber até onde ela vai. Soube naquela mesma noite. A divisória de madeira fez o resto. A Priscila estava no quarto a falar com a mãe.
— Já disse que foi pouco. Pausa. — Não, ele não desconfiou. Ficou apavorado.
Outra pausa. — Sim. O risco resolveu essa parte. O meu estômago revirou.
A Sônia falou mais alto dessa vez, e consegui ouvir pedaços. — … semana que vem. A Priscila respondeu:
— Depois da missa é melhor.
Silêncio. — Eu sei. Então a voz da Sônia atravessou a parede com nitidez suficiente. — Luto em cima de luto.
Ele nunca mais te larga, filha. Parei de respirar. A Priscila respondeu:
— E o atestado? — Já falei com ele.
— Tens a certeza? — Tem gente que assina por menos do que o teu pai deve da camioneta. Sentei-me na cama devagar, com as duas mãos no colchão para não fazer barulho. Elas iam matar um neto que nunca existiu.
Iam fabricar uma perda, transformar o meu filho em viúvo de uma criança imaginária e, se pudessem, colocar-me perto o suficiente da culpa para ele nunca mais me olhar sem lembrar. Foi a única noite daquela história inteira em que chorei. Não de tristeza. De nojo.
No domingo seguinte, fez um mês da morte do Aurélio. A missa foi na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, e a igreja ficou cheia. O meu marido conhecia metade da cidade pela marcenaria, e a outra metade porque metade da cidade era parente da primeira. Vieram clientes antigos, vizinhos do Tijuco, gente da orquestra que tocava na Semana Santa e que tinha comprado estantes de partitura feitas por ele.
Os sinos bateram por ele. Em São João del-Rei, os sinos falam, e isso não é maneira de dizer. O toque dos sinos mineiros é registado pelo Iphan como patrimônio cultural do Brasil, e a nossa cidade é a principal referência do registo. Cada toque tem um sentido próprio, e no toque de defunto até o som muda conforme seja homem ou mulher.
Quem nasce aqui aprende a distinguir sem precisar de olhar pela janela. Aquele toque, eu já tinha aprendido a reconhecer há um mês. A Priscila foi de preto, discreta, com a mão na barriga o tempo todo, como quem segura um documento. Na saída, no adro, formou-se aquela roda que sempre se forma depois da missa de trigésimo dia.
Gente a perguntar, a abraçar, a lembrar o morto, a comentar a família. Uma senhora que eu conhecia da farmácia perguntou:
— E tu, Priscila, estás melhor? Soube do susto. A Priscila deu um sorriso sofrido, perfeitamente calibrado.
— Estamos a tomar cuidado. A Sônia entrou. — A minha filha precisa de paz. Outra mulher disse:
— Coitada.
Perde o sogro e ainda passa por isso. A Priscila olhou para a mãe e falou baixo. Achou que baixo o bastante. Não foi.
— O Aurélio já foi, não é? Agora quem manda no futuro desta família sou eu. Eu carrego o herdeiro. Eu estava a dois passos.
O padre Anselmo também. A Dalva, do outro lado da roda, abriu a boca e esqueceu-se de a fechar. O Murilo empalideceu. A Priscila percebeu tarde demais.
Aproximei-me. — Tens razão, minha filha. Ela olhou para mim, desconfiada. — O futuro é tudo.
A roda ficou quieta. Sorri. — Por isso mesmo, sábado que vem, na minha casa, vou dar o chá revelação do meu neto. A Priscila não mexeu um músculo.
— O quê? — Já convidei o padre. Olhei para ele. O padre Anselmo, coitado, arregalou os olhos e depois, para crédito eterno dele, percebeu na hora e assentiu.
A Dalva entrou. — E eu cuido da comida. Uma senhora bateu palmas. Outra perguntou:
— Vai ter revelação com bolo?
— Vai ter o que a grávida puder — respondi. — Cadeira, repouso, sem sustos. Olhei para a Priscila. — Não vais precisar de levantar um dedo.
Só aparecer. A armadilha fechou diante da igreja inteira. Recusar a festa da própria gravidez, anunciada à frente de toda a gente, seria uma pergunta enorme pendurada no meio da cidade. Aceitar era entrar num sábado que ela não controlava.
A Priscila sorriu. Foi o sorriso mais difícil da vida dela. — Que querida, dona Lourdes. Faço questão.
Eu não esperava. — Eu sei. Então, sábado. — Sábado.
Ela abraçou-me. No meu ouvido, sussurrou:
— A senhora não sabe o que está a fazer. Respondi no mesmo tom:
— Finalmente concordamos em alguma coisa. Ela afastou-se.
No adro da igreja onde o meu marido tinha sido encomendado, a minha nora aceitou o convite do próprio enterro. E eu ainda fiz questão de avisar:
— Não precisas de trazer nada. A mentira já trazes de casa. Faltavam sete dias.
Sete dias para a Priscila fabricar um bebé. Sete dias para eu terminar de montar o salão. E foi a limpar a oficina do Aurélio para abrir espaço para a festa que encontrei a única coisa que não estava preparada para encontrar. A oficina ficava no fundo do quintal, um galpão de tijolo com telha de barro que ele próprio levantou no ano em que o Murilo entrou na escola.
Tinha evitado entrar ali desde o enterro. Não por superstição. Por covardia, mesmo. Ainda havia serragem no canto, o avental de brim pendurado atrás da porta, um lápis de carpinteiro preso na prancheta, um pedaço de madeira marcado a giz.
A oficina parecia menos um lugar abandonado do que um lugar à espera do dono voltar do almoço. A Dalva entrou atrás de mim. — Queres que eu faça isto? — Não.
Podemos usar o quintal. Mas quero abrir a oficina. — Porquê? Olhei em volta.
— Porque ele estaria aqui. A Dalva não respondeu. Começámos a tirar caixas, empilhar tábuas, limpar a bancada. As tábuas estavam de pé, encostadas à parede, com espaço entre uma e outra, do jeito que ele fazia questão.
O Aurélio dizia que madeira mal seca é traição a longo prazo. Entra no móvel com humidade a mais e, meses depois, quando solta a água e encolhe, a junta abre, a gaveta empena e o cliente acha que o marceneiro fez mal feito. Por isso, ele nunca comprava tábua com pressa. Comprava, empilhava, deixava respirar e só depois cortava.
No fundo, havia uma lona grande sobre qualquer coisa. — O que é isso? — perguntou a Dalva. — Não sei.
Puxei a lona e fiquei parada. Era um berço a meio. Madeira clara, laterais montadas, uma das cabeceiras pronta. Faltava lixar, encaixar algumas peças e finalizar.
Passei a mão pela madeira. Reconheci o cuidado do meu marido antes de reconhecer o objeto. Ele podia fazer uma prateleira para vassouras e ainda assim escolhia a peça como se fosse construir um altar. — Lourdes…
— a Dalva falou baixo. — Eu não sabia. No banco, estava o caderno de encomendas dele, de capa preta e elástico. Abri.
Fui até às últimas páginas escritas. Medidas, desenho do berço, com aquele traço firme de quem desenha com esquadro. E uma anotação a lápis no canto, com a letra pequena que ele usava quando escrevia para si mesmo. Para o neto.
Conferir com Lourdes. As datas não fecham. A Priscila disse três meses ao Murilo em setembro do ano passado. Perguntar ao médico do Beto.
Não falar nada ainda. Li uma vez. Duas. Na terceira, as letras começaram a embaralhar-se.
— O que foi? — perguntou a Dalva. Entreguei-lhe o caderno. Ela leu.
— Setembro. Sentei no banco de trabalho, aquele que tinha a marca de queimadura de um ferro de solda de vinte anos atrás. Lembrei-me de quase um ano antes. O Murilo tinha chegado para um almoço sozinho, num sábado.
Parecia nervoso. O Aurélio perguntou se estava tudo bem. Ele respondeu: a Priscila achou que estava grávida. Eu tinha-me esquecido completamente.
Foi uma frase atirada no meio de outra conversa, entre o feijão e a sobremesa. Depois, o Murilo disse que tinha sido alarme falso, um atraso, nada demais. Na época, ninguém deu importância. Ninguém, pelo visto, menos o Aurélio.
A Dalva fechou o caderno. — Ela já fez isto antes. E o teu marido percebeu. Olhei para o berço.
— Ele começou a construir. — Porquê? — Talvez para perguntar sem acusar. Peguei no caderno e passei o dedo na anotação.
O Aurélio era assim. Não gostava de acusar ninguém sem ter a certeza. Até a dúvida, tratava com cuidado. Ia terminar o berço, ia entregá-lo e ia olhar na cara da nora enquanto ela agradecia.
Depois, ia chamar-me à cozinha e dizer: Lourdes, explica-me uma coisa. O meu marido morreu desconfiado, calado. O berço era o jeito dele de perguntar. Passei a mão na madeira outra vez.
— Vou terminar a pergunta por ele. A Dalva sentou-se ao meu lado no banco. — Agora contas ao Murilo? — Ainda não.
— Nem isto? — Sábado. — És teimosa. — Sou viúva de marceneiro.
A gente aprende que peça posta fora de hora estraga o encaixe. Na quinta-feira, a Priscila desceu para o café com aquela calma muito bem passada que usava quando já tinha ensaiado a conversa. O Murilo estava à mesa. Eu cortava pão de queijo ao meio.
Ela sentou-se, apoiou a mão na barriga, ainda lisa, e disse:
— Falei com o médico. Ele não recomendou aglomeração. Acho melhor adiarmos o chá. O Murilo levantou os olhos na mesma hora.
— Se o médico recomendou… — Adiar é mais seguro. Muita gente, barulho, emoção. Não vale o risco.
Pousei a faca no prato. — Que estranho, minha filha. A Priscila olhou para mim. — O quê?
— O repouso. Ele pediu. Eu entendi. Mas no domingo foste à missa cheia de gente, ficaste no adro a conversar com meia cidade, e não houve problema nenhum.
Se agora a recomendação mudou, eu ligo para ele e pergunto direitinho o que pode e o que não pode. O silêncio veio antes da resposta. O Murilo ficou a olhar para a mulher. A Priscila levou a chávena à boca sem beber.
— Não é preciso incomodar o meu médico por causa de uma festa. — Não é incómodo. É o meu neto. Dá-me o número que eu mesma ligo.
— Ele não atende pacientes assim. — Então falo com a secretária. Quero fazer tudo como ele mandar. A Priscila demorou um segundo a mais do que devia.
— Eu vejo isso depois. — Vês hoje — disse o Murilo. Toda a gente se virou para ele. — Se for risco mesmo, a gente cancela.
Não quero festa nenhuma se o médico falou. Mas quero ouvir do médico. Foi a primeira vez que o meu filho não recuou quando ela puxou a trela do bebé. A Priscila percebeu.
Eu também. Ela mudou de terreno na hora, como quem troca de pé numa pedra escorregadia. — Está bem. Não precisamos de cancelar.
— Ótimo — disse eu. — Mas quero algumas regras. Nada de brincadeiras de adivinhar a barriga. Acho invasivo.
E nada de gente a fazer perguntas de consulta. Festa não é consultório. O Murilo franziu a testa. — Quem faria isso?
— Gente inconveniente. Na sexta, a Dalva apareceu com duas caixas de enfeites. A Priscila quase lhe arrancou uma das mãos. — O que é isso?
— Azul e rosa. — Eu pedi neutro. — Chá revelação neutro é reunião de condomínio. — Estou a falar a sério.
Foi a primeira vez que ouvi um fio de estridência na voz da Priscila. Um fiozinho só, mas afinado. O Murilo também ouviu. Estava na porta da sala com uma cadeira na mão e parou a meio do movimento.
Mais tarde, estava na sala quando ele se sentou ao lado dela. A Priscila lia qualquer coisa no telemóvel. O Murilo encostou a mão na barriga da mulher, um carinho tolo, instintivo, coisa de homem que quer sentir e não sabe pedir. Ela tirou a mão dele rápido, um reflexo, meio segundo.
Depois percebeu, sorriu e voltou a pôr a mão dele no lugar. — Está sensível. O Murilo não disse nada, mas o rosto dele mudou de dono. Naquela noite, bateu à porta do quarto dos fundos, fechou a porta atrás de si, coisa que nunca fazia.
— Mãe, fala. — Em setembro do ano passado, a Priscila disse que achava que estava grávida. — Lembro-me. Ele levantou os olhos.
— Lembra-se? — O teu pai comentou comigo. — Ela disse que tinha quase três meses. O meu coração bateu mais forte, e tive de segurar a mão por cima do joelho para não tremer.
— E depois? — disse ele. — Depois disse que se tinha confundido. Que o ciclo estava irregular.
Nunca contei isto bem a ninguém, porque achei que era idiota. Achei que era coisa minha. Ele passou as mãos no rosto. — Mãe, liguei para as clínicas de Barbacena.
Fiquei quieta. — Quais? — Todas as que encontrei com nome parecido. Liguei de manhã, do serviço.
Ninguém tem registo de exame dela. E ninguém me daria informação, mesmo que tivesse. Mãe, já entendi isso. — E o que fizeste?
— Nada. — Porquê? — Porque tive vergonha de desconfiar. — A vergonha não transforma mentira em verdade.
O Murilo começou a chorar, sentado naquela cama estreita, com trinta e quatro anos e a cara de quando tinha oito. — Mãe, estou a ficar louco? — Não. — Então fale comigo.
— Sábado. Ele encarou-me. — A senhora sabe? — Sei algumas coisas.
— Conte-me agora. — Não. — Porquê? Apontei para a porta.
— Porque se eu te der a verdade pronta, ainda podes passar a noite a procurar desculpa para ela. E não vou disputar contigo quem convence quem. — Não vou procurar desculpa. — Vais.
Tu amas essa mulher. Ele baixou os olhos. — Já não sei. — Então termina de descobrir sozinho.
Sábado olhas para ela à frente de toda a gente e vais saber. — Uma mãe não devia proteger o filho disto. — Uma mãe protege o filho de cair quando ele é pequeno. Um homem adulto, às vezes, precisa de sentir o chão para aprender a andar direito.
Ele saiu. Na sexta à noite, ouvi outra ligação a atravessar a divisória. A Priscila falava baixo, mas eu já tinha aprendido a acordar com aquele tom. — Mãe, consegui o exame.
Pausa. — Eu sei que dava para fazer melhor, mas a velha não me deu tempo. A festa é amanhã. Outra pausa.
— Ninguém vai conferir o código. O Murilo não é disso. Ouvi a Sônia responder qualquer coisa que não entendi. A Priscila concluiu:
— Está resolvido.
Fiquei imóvel na cama, a olhar para o teto no escuro. Ali percebi que o chá não era só um palco. Era uma prensa. Eu tinha tirado da minha nora o que uma golpista mais precisa para mentir bem: tempo.
Ela não entregaria um papel rastreável porque era burra. Entregaria porque eu a obriguei a fabricar uma saída em menos de uma semana, com a cidade inteira convidada. E o desprezo dela pelo próprio marido tinha acabado de completar a armadilha. O Murilo não é disso.
Levei essa frase para o sábado como quem leva uma faca. No sábado, a minha casa acordou parecendo outra. A Dalva chegou antes das sete. — Trouxe corante.
— Para quê? — Pão de queijo azul e rosa. — Dalva. Pão de queijo azul parece doença.
Ela ficou ofendida de verdade. — Não percebes de conceito. Às nove, já havia mesa no quintal, cadeiras emprestadas da igreja, fitas azuis e rosa amarradas na varanda e uma caixa grande perto da porta da oficina. O berço continuava coberto pela lona.
O caderno do Aurélio estava comigo, dentro de uma pasta debaixo do braço, e não saiu dali a manhã inteira. O padre Anselmo apareceu por educação e, tenho a certeza, por curiosidade. O Valdir chegou na camioneta com um laço enorme preso na caçamba. — O carro do bisavô também participa.
A Bisa saiu do banco de trás com dificuldade e aceitou a minha mão. — Bisavô era o meu falecido marido. Esse aí é só avô. E olha lá.
A Sônia veio de conjunto claro. — Off-white — corrigiu antes de alguém perguntar. A Dalva cochichou. — Parece madrinha de casamento de loja de aluguer.
— Comporta-te. — Estou a comportar-me — pensou baixo. A Neid instalou-se na melhor cadeira, debaixo do beiral, no lugar mais fresco do quintal. — Vim ver o milagre.
— Que milagre, mãe? — perguntou o Valdir. — Essa gravidez que muda de estação e continua com a barriga lisa. — Agora está a aparecer.
— Eu vi. Milagre de sábado. O Murilo chegou sozinho no carro, pálido. — A Priscila vem com a mãe — explicou.
A Sônia virou-se. — Eu já estou aqui. Ele franziu a testa. — Então, com quem é que ela vem?
Ninguém respondeu. Quinze minutos depois, a Priscila entrou pelo portão. Linda. Vestido claro de tecido leve, cabelo arranjado, maquilhagem delicada e, pela primeira vez em toda aquela história, uma barriga pequena, redonda, o suficiente para o vestido marcar.
A Dalva segurou-me o braço. — Lourdes, eu vi. A Bisa Neid inclinou-se para a frente. — Ah, agora fabricou.
A Priscila caminhou devagar, com uma mão nas costas e outra por baixo da barriga, naquele andar que uma mulher de sete meses tem e uma mulher de dois não precisa de ter. O Murilo olhava para ela como quem queria acreditar e tinha medo da própria vontade. Ela beijou-lhe o rosto. — Amor, finalmente estás a aparecer.
Sorriu. Depois, tirou uma folha de dentro de uma pasta transparente. — E trouxe uma coisa para acabar com os comentários. A Sônia aproximou-se.
O Valdir também. — É um exame de sangue. Beta positivo. Logotipo de um laboratório conhecido, daqueles com unidades em todas as cidades médias de Minas.
Nome da Priscila impresso no alto. Data recente. Entregou-o ao Murilo. — Pronto.
Agora podes respirar. O meu filho leu. Leu de novo. Os olhos encheram-se.
A Priscila procurou-me com o olhar por cima do ombro dele, e eu senti, pela primeira vez em semanas, um fio de medo verdadeiro. Não porque acreditasse no exame, mas porque uma mentira boa não precisa de ser verdadeira. Precisa de parecer verificável por tempo suficiente. A notícia correu pela festa mais depressa que o pão de queijo.
— Ela trouxe exame. Então é verdade. Coitada. E o povo a falar, a sogra devia estar a desconfiar à toa.
A Sônia circulava com a folha como um troféu de campeonato. Em algum momento, apareceu com uma moldura. Claro que apareceu. — Isto merece ser guardado.
A Bisa Neid olhou. — Essa mulher põe moldura até numa conta de luz, se tiver ocasião. O Valdir subiu para o estribo da camioneta. — Ao herdeiro!
— Desce daí — gritou a Sônia. — Vais amassar. — Isto aguenta peso. — Tu não.
As pessoas riram. A Priscila sentou-se numa cadeira enfeitada com tule, com uma manta sobre as pernas, rainha de uma gravidez que tinha comprado o corpo naquela manhã. Quando passei com uma bandeja, ela chamou-me. — Dona Lourdes.
Abaixei-me. Ela falou a sorrir para quem olhava, e com veneno só para mim. — A senhora fez uma festa linda para o meu filho. Obrigada.
Aproveite bem. — Vou. Porque a próxima festa nesta casa, quem dá sou eu. Sorri.
— Gostas muito de futuro. Mais do que imaginas. — Então, espera o encerramento. Passei adiante com a bandeja.
A falsa vitória dela era quase perfeita. O exame parecia real. A barriga estava ali. A cidade começava a recuar da dúvida.
O Murilo segurava aquele papel como quem segura a salvação. Só que eu tinha preparado três presentes. Um embrulho azul, um rosa e um sem cor. O azul continha uma pasta com todas as inconsistências que a própria Priscila tinha produzido: as datas que deu a cada pessoa, o endereço da clínica que finalmente forneceu ao Murilo quando ele exigiu um local exato, e a confirmação de que naquele endereço funcionava uma loja de materiais de construção havia quatro anos.
O rosa era para o exame. Eu ainda não sabia exatamente como o usaria. Até o Murilo me chamar atrás da oficina. — Mãe.
Estava com o telemóvel numa mão e o papel na outra. — O que foi? — Olhe para isto. Mostrou o ecrã.
O exame da Priscila tinha um código de protocolo impresso no rodapé, com um daqueles quadradinhos de leitura e uma frase pequena por baixo. Laboratório sério imprime aquilo justamente para que o próprio paciente possa entrar no site oficial, digitar o código e ver o resultado igual ao da folha. É uma proteção de quem faz o exame. Não um enfeite.
O Murilo tinha lido a frase, entrado no endereço impresso no rodapé pelo próprio quadradinho e digitado o código. O resultado abriu. Mesmo protocolo, mesma data, mesmo valor. Outro nome.
Outra mulher. O meu filho estava branco como a parede. — Ela pôs o nome dela em cima do exame de outra pessoa. Segurei-lhe o braço.
— Tens a certeza de que entraste no lugar certo? — Pelo código do próprio papel. Mãe, faça de novo. Ele fez devagar, a digitar com cuidado, com a minha mão no ombro.
Mesmo resultado. — Salva. Já salvei. — Tira foto ao ecrã.
— E chama o padre. O Murilo olhou para mim. — O padre serve de testemunha para que ninguém da família dela possa chamar-te cúmplice da sogra. O padre veio a enxugar as mãos num guardanapo.
O Murilo repetiu o procedimento diante dele, do princípio ao fim. O homem tirou os óculos, limpou-os na batina e voltou a pô-los. — Meu filho, isto é sério? O Murilo riu sem nenhum humor.
— Está a ficar. — O que pretendes fazer? Ele olhou para mim. — Descobrir até onde vai.
Naquele segundo, soube que o meu filho tinha acordado. Não porque acreditou em mim. Porque finalmente acreditou nos próprios olhos. Guardei o papel original dentro da pasta, junto com o caderno do Aurélio, e falei baixo, só para ele.
— Este original fica comigo até decidires o que queres fazer. Apresentar documento adulterado como verdadeiro é crime no Código Penal. E quem foi enganado pode registar ocorrência na esquadra. A advogada ensinou-me uma coisa simples: quem recebe o papel, guarda o papel, porque é sobre o documento original que a perícia trabalha.
O Murilo assentiu e não perguntou mais nada. A Sônia bateu com uma colher numa taça. — Atenção. Vai começar a revelação.
O padre respirou fundo, como quem entra em água fria. A Dalva apareceu na porta da oficina e olhou para mim. — Está na hora. Peguei nos três embrulhos e voltei ao quintal.
A Priscila estava no centro, na cadeira de tule. O Valdir filmava com o telemóvel na horizontal, orgulhoso da própria competência. A Sônia sorria. A Bisa Neid comia brigadeiro com uma colherinha.
Peguei no microfone que a Dalva tinha arranjado emprestado com o rapaz do som. — Antes do azul e do rosa, quero a família toda aqui à frente, por favor. As conversas foram parando por partes, como um rádio a perder o sinal. A Priscila olhou para mim.
O Murilo ficou ao lado dela. A Sônia ajeitou o cabelo. O Valdir desceu do estribo. Pus os três presentes numa mesa forrada com uma toalha branca.
— Tenho três presentes para entregar. Olhei para a minha nora. — Entreguei o embrulho azul à Priscila. Abre.
Ela sorriu para a plateia. — Dona Lourdes, não precisava. — Precisava. Rasgou o papel.
Dentro, havia uma pasta. O sorriso diminuiu de tamanho. O Murilo não tirava os olhos dela. — O que é isto?
— As datas que tu mesma deste, uma a cada pessoa desta casa. O endereço da clínica que forneceste ao Murilo. E a informação de que, nesse endereço, funciona uma loja de materiais de construção há quatro anos. A Priscila levantou o rosto.
— Isto é perseguição. — Pode ser. Por isso está tudo aí escrito, para qualquer pessoa conferir. Perseguição também se confere.
Ela fechou a pasta. — Mudei de clínica. — Quantas vezes? — Isso não é da sua conta.
— Concordo. A tua gravidez também não seria, se não tivesses usado o bebé para mandar na minha casa. A Sônia avançou dois passos. — A senhora está a constranger uma grávida de risco.
O Valdir apontou o telemóvel para mim como se fosse uma arma. — Se acontecer alguma coisa com o meu neto… A Priscila levou a mão à barriga. — Murilo.
Não posso passar por isto. A trela puxou. Dessa vez, o meu filho não se mexeu. — Abre o segundo — disse ele.
A Priscila virou-se devagar. — O quê? — Abre! A voz dele estava irreconhecível.
Não era um grito. Era pior. Empurrei o embrulho rosa sobre a toalha. Dentro, estava uma cópia do exame que ela mesma tinha trazido de manhã.
E, atrás, a impressão do resultado aberto pelo protocolo verdadeiro, com o nome que não era o dela. O Murilo pegou no microfone da minha mão. — Eu mesmo confirmei pelo código deste papel, na frente do padre. O padre assentiu com a cabeça.
— O protocolo corresponde a outro nome — disse ele. E a voz de quem lê o Evangelho todos os domingos tem um peso diferente no quintal. O quintal ficou mudo. Dava para ouvir o gás do isopor da cerveja.
A Sônia reagiu primeiro. — Montagem! A Priscila perdeu a cor. — Murilo, dá-me isso.
— Quem é essa mulher? — Não sei. — Então porque é que o exame dela está com o teu nome? — Posso explicar.
— Explica. Ela abriu a boca. Nenhuma frase saiu. Foi quando a Bisa Neid levantou uma mão.
— Já que estão a falar de montagem… Toda a gente se virou. Ela abriu a mala e tirou uma etiqueta pequena de papel, com um pedaço de plástico ainda preso. A Sônia arregalou os olhos.
— O que é isso, dona Neid? — Etiqueta de barriga de silicone, dessas de fantasia. Achei no lixo da casa de banho, quando fui tomar o meu remédio das quatro. O quintal explodiu num murmúrio que subiu como uma panela a ferver.
A Priscila apertou a manta sobre as pernas com as duas mãos. A Neid continuou sem pressa, a girar a etiqueta entre os dedos, como quem confere um preço numa loja. — Ia deitar fora. Depois pensei: nesta família, é melhor guardar papel.
A Dalva pôs a mão na boca para não rir alto. A Sônia avançou para a velha. — Dá-me isso. — Montagem é barriga de loja, Sônia.
O meu português está bom assim? O Valdir deu um passo atrás e baixou o telemóvel. A Priscila olhou em volta, à procura da única pessoa que ainda a podia salvar. — Murilo.
Ele não respondeu. — Olha para mim. O meu filho olhou. A voz dela finalmente quebrou.
— Olha para mim. Tu conheces-me. Vais ser pai. Eles querem separar-nos.
É isso que a tua mãe sempre quis, desde o começo. Põe-me… Ela parou. Tarde demais.
O Murilo fechou os olhos. — Põe-te acima do meu pai outra vez, Priscila. Ela ficou imóvel. — Murilo.
— O meu pai está enterrado há cinco semanas. Tu inventaste um filho em cima do caixão dele. Foi então que puxei o embrulho sem cor. Não cabia lá um berço, claro.
Dentro, estava apenas a última página escrita do caderno do Aurélio, protegida por um plástico. Entreguei-a ao meu filho. Depois, apontei para a oficina. A Dalva puxou a lona.
O berço a meio apareceu na porta do galpão, com a madeira clara a apanhar o sol da tarde. O Murilo levou a mão à boca. — Pai… Peguei no microfone de novo.
— Encontrei isto esta semana. O teu pai começou-o há meses, quando a Priscila já tinha dito uma primeira vez que talvez estivesse grávida. O Murilo leu a anotação. As pernas dele pareceram falhar, e apoiou-se na mesa.
— Ele sabia? — Não sabia. Desconfiava, e não quis acusar sem prova. Passei a mão pela madeira.
— O teu pai dava madeira boa até à dúvida. Olhei para a Priscila. — Ele morreu antes de terminar a pergunta. Ela estava sem expressão nenhuma.
Nem choro, nem grito. Só o rosto de quem viu todas as portas fecharem ao mesmo tempo, por fora e por dentro. Fiz a única pergunta prometida. — De quantos meses estás, minha filha?
Silêncio. — Podes responder qualquer número. É o único que ainda não tenho por escrito. A Priscila não respondeu.
Um segundo. Dois. Cinco. A mulher que tinha controlado aquela história inteira com a voz perdeu tudo sem dizer uma palavra.
E eu nunca precisei de contar a ninguém o que vi cair da mala dela no meu tapete, doze dias antes de enterrar o Aurélio. Aquele papelzinho de farmácia serviu para uma coisa só: fez-me olhar. Todo o resto, quem trouxe foi ela. A Sônia começou a recolher os papéis da mesa às pressas.
— Isto é da família. A Dalva segurou a moldura antes dela. — Agora virou documento histórico. O Valdir falava ao telefone perto da camioneta, a tentar resolver qualquer coisa sobre uma prestação em atraso, enquanto o laço enorme continuava amarrado na caçamba.
Ninguém mais prestava atenção a ele. Nem a mulher. O Murilo tirou a aliança. A Priscila finalmente chorou.
— Não faças isso. Ele foi até ao berço, pôs a aliança em cima da madeira inacabada, no lugar onde faltava lixar. — Devolve quando nascer alguém. E saiu pela porta da oficina do pai, atravessou o quintal e desapareceu na rua.
Eu não fui atrás. Naquele dia, ele precisava de caminhar sozinho. A Priscila deixou a minha casa na segunda-feira de manhã. Duas malas, as mesmas que tinham chegado semanas antes.
Dessa vez, o Murilo não carregou nenhuma. A Sônia veio buscá-la. O Valdir não apareceu. A camioneta também não.
Na sexta, soube que a Priscila tinha saído da cidade. Não perguntei para onde. Quinze dias depois, da janela da casa da Dalva, vi a minha ex-nora sair de casa dos pais com duas malas e entrar no carro velho da Sônia, aquele a que ela chamava carro reserva. A Dalva olhou para mim.
— Queres saber para onde vai? — Não. Já tinha visto etiqueta de barriga. Etiqueta de gente a descer de vida, a cidade inteira viu sozinha.
O Valdir perdeu a camioneta pouco depois. Ninguém precisou de espalhar. Numa cidade em que os sinos avisam tudo, um reboque à porta de casa dispensa comentário. A vaga coberta da minha garagem voltou a ficar vazia.
O silêncio daquele motor foi a música do mês de outubro inteiro. A Bisa Neid apareceu numa tarde com uma mala pequena. — O que é isso? — perguntei.
— Mudança. Para o quarto do fim do corredor, já que vagou. A Dalva quase derrubou o café. — A senhora está a convidar-se para morar aqui?
— Estou. Aqui, pelo menos, o espumante fica com o rótulo virado para a frente. Olhei para ela. — E se eu disser não?
A Neid deu de ombros. — Eu volto amanhã e pergunto outra vez. Ficou. Arrumámos aquele quarto a direito, com cortina nova e uma poltrona que o Aurélio tinha feito para a mãe dele.
A Neid ficou melhor ali do que na casa do filho, porque na minha casa ninguém corrigia o português dela. O Murilo demorou três dias para voltar. Parou na cozinha como fazia quando era adolescente e tinha feito asneira, com a mão no batente da porta. — Mãe, posso ficar no meu quarto antigo por um tempo?
— Podes. Ele começou a chorar. — Não sei como pedir desculpa. — Começa por não explicar demais.
— Desculpa. — Melhorou. Ele limpou o rosto com a manga. — Deixei-a tirar a senhora do seu quarto.
— Deixaste. — Deixei-a mandar na sua casa. — Deixaste. — E a senhora ainda me deixa voltar.
— Tu és meu filho. Ele baixou a cabeça. — Então está tudo bem? — Não.
O Murilo olhou para mim. — Perdoo-te como filho. Isso aqui é de nascença. Não tem prazo, não tem juros e não vence.
Apontei para ele. — Agora, como homem, vais levar um tempo a pagar-me. Deixaste uma estranha dar-me ordens dentro da minha casa, na frente da foto do teu pai. Ele engoliu em seco.
— Eu sei. — Perdão de mãe, dou de graça. Respeito de volta, vais pagar em prestações. Parei.
— Que nem a camioneta do teu ex-sogro. O Murilo riu e chorou ao mesmo tempo. Foi o único riso molhado de toda aquela história. Na semana seguinte, voltei para o quarto grande.
Desfiz as caixas, uma por uma, sem pressa, na tarde de um sábado, com a janela aberta. Tirei as cortinas claras que a Priscila tinha pendurado e pus as minhas de volta, que são escuras mesmo, porque gosto de dormir no escuro, e a casa é minha. Pendurei a camisa xadrez do Aurélio no fundo do guarda-roupa, onde ainda está. Pus o relógio parado de volta na cómoda, sem acertar a hora.
Há coisas que a gente deixa a marcar aquilo que marcaram. E pousei a foto dele outra vez na estante da sala, no retângulo mais claro da madeira, que encaixou certinho. Energia pesada era outra coisa, e tinha ido embora de mala e cuia. O berço continuou na oficina.
O Murilo perguntou se eu queria desmontá-lo. — Não. — Então o que faço? Entreguei-lhe o lápis de carpinteiro do pai, aquele achatado que não rola da bancada.
— Termina. — Para quando? — Para quando for verdade. O meu filho passou os dedos pela madeira.
— Não sei fazer como ele. — Aprende. E aprendeu devagar, a errar, a refazer duas vezes um encaixe que o pai teria feito de olhos fechados. Passou o resto daquele ano a ir para a oficina depois do serviço.
Primeiro por obrigação. Depois, por outra coisa. Emagreceu, engordou de novo, voltou a rir de piadas tolas na cozinha. Em dezembro, já falava do berço como quem fala de um projeto, não de um castigo.
Numa tarde de janeiro, virou a cabeceira que o Aurélio já tinha deixado pronta, para lixar a parte de baixo, e chamou. — Mãe! Fui até à oficina a secar as mãos no avental. Ele apontou para uma frase pequena, escrita a lápis numa parte da madeira que ficaria escondida depois da montagem.
Reconheci a letra antes de terminar de ler. Madeira boa espera. O Murilo passou o polegar perto das palavras, com cuidado para não apagar. — Ele escreveu isto?
— Escreveu. Fiquei a olhar para a frase que o meu marido tinha deixado num lugar onde só outro marceneiro provavelmente a encontraria. O Aurélio ainda conseguiu falar comigo uma última vez. A mentira tem pressa porque tem prazo.
Precisa de anúncio, de documento, de barriga, de desculpa. Tudo antes de alguém fazer a conta na ponta do dedo. A verdade não. A verdade, como a madeira boa, espera.
A minha nora ligou no enterro do meu marido a mandar o meu filho pô-la acima do pai. Eu prometi dar-lhe exatamente o que ela queria, e cumpri. Dei palco, dei plateia, dei festa com padre, com fitas azuis e rosa, com salgadinhos feitos em casa e a cidade inteira a olhar. Deixei a Priscila subir sozinha, o mais alto que a mentira dela aguentou.
O problema de ficar acima de toda a gente é que lá em cima não há onde se agarrar. E o Aurélio, que Deus o tenha, ficou onde os homens grandes ficam: no chão firme, num berço de madeira clara, à espera de ser avô no tempo certo. Quem colhe verde perde a fruta. Quem constrói a direito sabe esperar.
Tenho agora sessenta anos. Durmo no meu quarto, na minha cama, na minha casa. O meu filho aprendeu a lixar madeira e a olhar para as pessoas com os olhos abertos. E quando passo pela oficina e vejo aquele berço pronto, encostado à parede, coberto por um pano limpo, não sinto tristeza.
Sinto que há ali dentro uma pergunta, feita por um homem bom, à espera da resposta certa.


